impressões de ontem


Muito afim


"A amizade requer aquele raro ponto médio entre semelhança e diferença", escreveu o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson.


Adorei a frase, mas quando pensava sobre a amizade recebi uma outra, da amiga Márcia:



"Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto onde foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo medindo a vida".

Arthur da Távola


E aí minha atenção se desviou para as palavras semelhança e afinidade. Uma sensação de mistério. Sim, porque amizade é uma coisa plantada, tratada e regada, logo se saberá se viceja ou perece, é natural, floresce e frutifica ou fica apenas caule, meio seco mas esperado.


Já a afinidade carrega consigo um quê de mistério. Não tem porque acontecer, é ilógica, randômica e inesperada. Não é fruto de plantio ou da vontade, e se não se dá vida a ela, assim também parece impossível que morra.


Gosto do sentimento da afinidade porque nele cada um pode ser o que realmente é. Como sentir afinidade se eu finjo? Os fingidores jamais poderão sentir a verdadeira afinidade, a mentira encontra parceiros, mas não afins. A afinidade também preserva a liberdade, podemos senti-la e continuar sendo diferentes.


A afinidade é independente como diz a frase porque não precisa do amor, da simpatia, existe mesmo na raiva, no desconforto e no ódio. Aliás faz tempo que as afinidades mal compreendidas levam ao ódio e à diferença. Sou estranho ao que me é semelhante ou muito sabido, sou estranho e desconhecido de mim mesmo em alguns momentos e aí me armo contra o que é igual.


Para encontrar afins você precisa conhecer seus gestos, sua preguiça, seu mau gosto e suas preciosidades. Precisa ter uma marca pessoal, por isso eu desconfio que afinidade pra valer seja mais presente em pessoas maduras. É lógico que eu estou chutando, mas a afinidade entre jovens vem sempre acompanhada de um corte de cabelo, uma roupa, um som da moda, enquanto na idade mais madura pode vir de uma lembrança, de uma pétala seca entre as páginas de um poema, um violino distante, um rosto, um erro, um suspiro.


Até no que é ruim a afinidade aparece. Nas piores músicas, nas alergias, nas derrotas, na solidão, na distância e nos veios caprichosos do mármore de uma lápide ou da mesa de um bar.


Dá pra sentir afinidade por quem nunca se viu ou se conheceu, e assim retomar conversas como se nunca tivessem sido interrompidas, surpreender-se a cada uma delas como se tivéssemos um parente distante que nos ocultaram por décadas, um terço interminável de semelhanças misteriosas.


Anos atrás eu dizia "estar a fim" de alguém ou de alguma coisa quando queria muito alguém ou algo. Desconfio que queria mesmo dizer "estar afim" pra externar o sentimento de pertencer, querer fundir-se com, juntar as metades rasgadas, porque no fundo mesmo, quando isso acontece me sinto mais humano, mais real, mais parte de um todo maior, sem tempo, sem bolor e sem sobrenomes.





Escrito por Bera às 05h36 AM
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Abre as Asas Sobre Nós

Quando eu era pequeno havia uma propaganda com uma música muito bem feita, acho que pelo Zé Rodrix, que dizia "liberdade é uma calça velha azul e desbotada", e era comum ouvirem-se ironias a essa letra porque naquela época havia uma ditadura e a liberdade era um artigo de luxo para todos nós.

Alguns podem achar reducionista a frase do Zé, eu não achava e não acho. Sei que ele queria liberdade tanto quanto eu e se alguém a reduziu não foi ele, com certeza. Além do mais, quem da minha geração não sonhou com uma calça Lee? Pra mim ela representou o fim dos vincos, das benditas calças marrons que minha mãe comprava, das barras e dos cintos combinando...o fim dos cabelos curtos e o começo da vida de adulto. Não fosse o jeans eu talvez eu tivesse hoje vinte anos a mais.

Bom, mas eu estou me distanciando do que queria comentar.

Há alguns dias atrás estava numa sala coordenando o trabalho de um grupo de pessoas que discutiam e aplicavam técnicas do empreendedorismo em seus negócios num sistema de sub-grupos e colaboração mútua. Um deles apresentou um trabalho muito bem sucedido de uma grande mudança pessoal para resultados mais expressivos. O envolvimento do grupo, do proprietário da empresa, dos funcionários e clientes nos deixaram espantados e felizes.

Foi quase no final que alguém perguntou a esse empresário qual teria sido o maior benefício de todo o trabalho (foram quase 9 meses) e ele disse literalmente o seguinte: "Liberdade. Isso foi o que eu mais ganhei. Antes eu achava que o grupo de colaboradores eram um bando de pessoas que trabalhavam pra mim e via o cliente como alguém que pagaria minhas contas e meus luxos. Hoje entendo diferente. As pessoas dentro do meu negócio têm a minha confiança. Posso sair e deixa-las fazer seu trabalho. Todas querem agradar o cliente e fazer o melhor que podem. Hoje conversamos e decidimos juntos. Vejo o cliente hoje como a razão de ser da empresa. Faço tudo por ele e a equipe me ensinou isso. Eu me sinto mais livre e com mais tempo para família e amigos".

Imaginem o efeito que essa fala provocou no grupo. A emoção e o aplauso vieram porque acredito que a maioria ali presente ansiava por uma liberdade assim. Por que empreender deve ser sinônimo de sofrimento e perda? Por que tocar um negócio deve estar ligado a sentimentos de aprisionamento, de conflito com funcionários que só pensam em levar o deles e com clientes que sempre querem levar vantagem? Não seria tempo de quebrarmos esses paradigmas?

Gostaria de citar Viktor Frankl, um psicólogo austríaco que escreveu: "A liberdade para os seres humanos não é uma liberdade "de", mas uma liberdade "diante de". Não é uma liberdade de estado, mas uma liberdade de escolha. Diante dos condicionamentos e limites, fatos e circunstâncias, o ser humano é livre "para".

Quando eu era criança aprendíamos e cantavamos os hinos brasileiros. Sim, são vários. O nacional, o da república, o do expedicionário, o da marinha, etc. Aprendi e cantei todos e sempre tive um predileto: O da República, que por ter letra do Olavo Bilac também tem palavras que são do século passado, como labéus e porvir, que cantávamos automaticamente, mas tem um refrão que eu nunca esqueci:

Liberdade! liberdade! /Abre as asas sobre nós! / Das lutas, na tempestade/ Dá que ouçamos tua voz!

Hoje sinto que liberdade talvez seja treinar e me esforçar para ouvir essa voz, em meio à confusão interna e externa do cotidiano e de meus diálogos internos. Ouvir e seguir essa voz, seguir essa intuição, essa consciência-radar, esse espírito - não sei que nome seria mais adequado - seguir de forma espontânea esse algo que me ajuda dar melhores respostas e a fazer melhores escolhas diante das perguntas da vida; que me leva a dar mais sentido e felicidade ao fato de existir.

Desse esforço e treino me percebo tendo alguns lampejos de liberdade. Nesses momentos respondo sem pensar, meu coração fala, alterno entre emoção e clareza, faço comparações improváveis e surpreendentemente fundamentadas, não há tristeza, apenas um sentimento de estar, bem-estar.



Escrito por Bera às 01h41 AM
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Por quem os joelhos dobram



Raramente concordo tanto com um texto. Tanto que resolvi publicar aqui. Também porque ando meio cansado e sem inspiração, mas o autor faz a gente refletir muito sobre valores como a persistência (e os motivos que nos levam a persistir), sobre a desgraça que é passarmos a vida inteira querendo aprovação dos outros (e agindo de forma a recebê-la), quando seríamos bem mais felizes sendo nós mesmos. Seríamos todos bem mais Mastroianni...



Além disso é bem escrito, criativo e bem humorado, coisas que eu gosto e então compartilho com vocês. Taí...e obrigado Xico Sá, espero não ter problemas com este copiarcolar bem intencionado.



XICO SÁ

Ora bolas


AMIGO TORCEDOR , amigo secador, homem que é homem chora em público, aos soluços, seja qual for o motivo, chora pela circunstância e chora pelo conjunto da obra, porque o choro de um homem nunca é um choro isolado, homem chora a dureza represada de ser homem, e triste dos homens que não choram nunca.
Guga e Romário, por exemplo, choraram nesta semana o crepúsculo dos ídolos, a difícil hora de voltar para a vida normal de todos nós. Ronaldo chorou a mesma dor da outra vez, como ele mesmo disse, a dor que por mais que se repita é sempre capaz de surpreender até aquele homem doente, mau e desagradável que habita um subsolo perto da minha casa. Agora chega, amigo, reserva o joelho para dobrar pelas belas mulheres, para fazer uma prece, para, no máximo, bater uma bola no churrasco com o Ronald. Chega de sofrer em público, esquece essa loucura cristã e masoquista de dar a volta por cima.
Vai ser craque na vida, menino, chega de provar para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém, vai para a noite e transforma todos os dias seguintes em dias de Mastroianni, como os belos dias sugeridos pelo Cuenca, não o Deportivo da Libertadores, amigo, mas o João Paulo, escriba decente da aldeia carioca. ""O Dia Mastroianni", como relata o livro homônimo, é aquele gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística.
Ronaldo, amigo Fenômeno, os sádicos já estão lá fora, salivando à espera do seu novo sacrifício, de uma nova via-crúcis, de que abra a mão da vida livre e farta em nome de uma tal superação masoquista.
Pensa bem, amigo, se a meta é se recuperar para as artes ludopédicas, levará pelo menos um ano, e olhe lá, é muito tempo. Se a recuperação é só para a vida e suas delícias, basta tirar os pontos e começar o estrago logo aí mesmo em Paris. Asseguro que terá mais boas festas do que o Ernest Hemingway; garanto que Henry Miller vai se debater no túmulo com a doce inveja das suas mulheres.
Ora bolas, amigo, esquece os gramados, esquece essa torcida chata de Milão, esses doentes por futebol são um saco, nem conseguem enxergar os jogos, consagram e condenam num piscar de olhos. Vem para o Rio, meu rapaz, esquece as famosas e vê quantas belas bundas anônimas e menos trabalhosas. Sim, despede-se no Maraca, num jogo entre amigos, um tempo com a camisa do Flamengo e o outro com a indumentária do divino São Cristóvão, o berço, onde até aquela cabrita magra que pasta na grande área sente saudades dos seus primeiros gols.

O corvo lamenta
Lamentável que a Copa do Brasil, torneio sagrado dos grandes secadores espalhados pelo país, tenha perdido um pouco do seu charme. Como mostrou esta Folha, muitos clubes estão largando seus grotões para jogar nas capitais e até fora de seus Estados. Esse abandono da aldeia, incentivado pelas malditas transmissões da Globo, é criminoso. Meu corvo Edgar estava tão triste anteontem que nem viu os jogos. Preferiu ver o Tarcísio Meira no filme ""Eu", do genial Walther Hugo Khouri, no Canal Brasil.

xico.folha@uol.com.br


Ah!! O Xico também me fez imaginar que o Ronaldinho tenha feito um trato com o diabo, como um Fausto de chuteiras, e em troca da fama, fortuna e de ser o maior artilheiro de copa de todos os tempos teria dado sua alma, mas eis que na hora h se apieda a alma negra do demônio, e olhando para o garoto magro e miserável só consegue levar dele, assinado, os dois joelhos.


Pra saber e ler mais do Xico Sá: www.carapuceiro.zip.net



Escrito por Bera às 10h29 PM
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Pequena Viagem Ilustrada ao Centro da Terra

O ano está no seu fim de semana, os carros, as pessoas, os pombos, tudo pressente que algo está terminando. Embora ilusório, afinal em muitos lugares o ano não acaba em dezembro, (aliás nem dezembro existe), é assim que eu sinto e foi esse sentimento que me levou a caminhar sem rumo por uns 45 minutos pelo centro da terra.

Eu atendia a um compromisso que não aconteceu e de repente estava no Páteo do Colégio e o Páteo é o centro desta terra onde eu também tenho meu centro e minhas raízes. No mais puro espírito vagabundo resolvi parar tudo e almoçar sem pensar em hora ou apetite e ao entrar no café que funciona dentro do Páteo dei de frente com a parede de taipa que foi conservada como o último pedaçinho de história da fundação em janeiro de 1455.

Aquilo que parece o perfil de uma serra, ao fundo, é a parede, cercada de vidro e tela protegida de nós mesmos, pois já destruimos tudo que lembrava o passado. Foi feita com terra, capim, sangue de boi, sal, cipós, suor e marca como um umbigo onde tudo isso começou.

Decoram as janelas tantos Mercurios ou Hermes, o deus gênio da permuta, com seus rostos sólidos e expressões compenetradas de quem reflete sobre o valor e a justiça de seus atos. Parecem mirar as milhares de pessoas que fazem do comércio uma experiência pagã, a sobrevivência do mais forte, sem filosofia, sem elegância. O que pensarão os deuses, sob seu pesado elmo, ao observar camelôs, bancos, ervas milagrosas e o rapa da prefeitura?

Aqui nesta colina erguemos nossos Paternons em granito e moedas e consolidamos o ato de conduzir como uma profecia da qual fugimos todo fim de semana para qualquer praia, qualquer verde, qualquer espaço de liberdade.

 

O centro da terra também é feito de encontros improváveis; raças, credos, miséria e riqueza se cruzam em esquinas que jamais reconheceremos, serão sempre novas mesmo que as cruzemos por quarenta anos.

 

O pouco que sobrou de uma arquitetura de cidade luz escurece sob a fuligem e é cortada pela eletricidade de fios negros e onipresentes, não há no centro da terra onde os fios não estejam, nem a fé e a natureza escapam.

 

 

É ao mesmo tempo assustador e interiorano, o centro da terra. Há pessoas simpáticas atrás do balcão de um sebo que contam a você histórias da avó que se chamava Iva mas devia ter sido Ivone, há garçonetes simpáticas que perguntam sobre o seu dia e retornam de troco um sorriso quando você responde. Há ingleses e italianos com guias e um casal negro onde um fala inglês e o outro responde em português. 

Há a presença inesperada do silêncio e árvores no páteo do centro da terra. Na porcelana branca uma insólita e pequena abelha experimenta a calda da torta de maçãs e o aroma do café. Sinto prazer em dividir.

No metrô Sé o coral dos Correios dá o toque final nessa viagem que bem poderia ter sido em sonho. O Gil, carteiro, o último da direita, próximo a ser devorado pela serpente amarela, me ensina o que é por a alma naquilo que se está fazendo. A letra do Gonzaguinha sai de sua boca escancarada como se fosse o último som antes do fim do mundo e a música balança seu corpo naturalmente e o relaxa, um divino baixar de santo, um abençoado milagre físico de emoção. Sua luz não permitiu uma imagem melhor.

Mar e terra/Inverno e verão/Mostro um sorriso/Mostro alegria/Mas eu mesmo, não/E a saudade no coração.

Pensando bem fico com essa definição cantada. Tão boa pra definir o Centro da Terra que se esconde e pisca em luzes em cada um de nós e nesse lugar incrível que escolhemos para fincar nossos pés.

 



Escrito por Bera às 08h18 AM
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A Era dos Descobrimentos, Decisões e Chaves


Foi uma semana mais que especial.



Imaginem que estive lado a lado com uma pessoa que em determinado momento fez uma descoberta imensa: A descoberta de sua vocação.



A minha sensação foi a de estar lá no alto do mastro principal de uma caravela imaginária quando ela gritou "terra a vista!" ao vislumbrar o imenso continente de sua missão de vida, os vales e montes do resto de sua existência. Junto com essa visão maravilhosa veio uma outra: Essa pessoa ainda pequena, diante de um quadro negro improvisado ensinando coisas a uma irmã menor, uma visão aparentemente simples, mas que dá sentido a toda uma vida a ser vivida e assim se torna grandiosa.


Essa emoção da descoberta me fez pensar muito em quantos mares cruzei para encontrar os sentidos para minha vida, me fez questionar e recalcular o valor de cada uma das minhas pequenas conquistas.


Senti uma gratidão imensa por estar ali, por ela ter me dado a permissão de estar com ela nesse momento tão especial. Choramos juntos um choro calmo e sem tristeza. Um choro de pura alegria.

Também foi muito bonito estar ao lado de uma outra pessoa no exato momento em que ela tomou uma simples decisão. Parece fácil mas não é, porque a decisão que ela tomou foi a decisão de SER o que quer ser.


Vou tentar explicar. Parece que faz muito tempo que essa pessoa vem vivendo vários papéis, esses que a vida de cada um oferece todos os dias. Ela vem cumprindo esses papéis de filha, esposa, amiga e muitos outros com carinho e dedicação, mas o que ela não sabia é que inconscientemente, talvez, vinha se preparando para um papel maior, e estávamos juntos no exato momento em que ela escolheu esse papel.



Foi assim: Ela escreveu todo o roteiro, falas, cenários e características desse personagem como se o psicografasse aos poucos e com muita emoção. Depois me chamou para que eu fosse a primeira pessoa a ver o personagem pronto e me pediu uma opinião como se ainda não tivesse certeza, e nesse momento ela sentiu o espanto de ver aquilo que sempre quis ser, construído alí na sua frente e nos emocionionamos muito porque esse era um personagem esperado e preparado por um longo tempo e também porque esse SER é esperado por muitas outras pessoas. Não teve jeito, choramos juntos também, um choro repentino de alívio e encontro.



Também nesta semana - eu falei que foi especial, não falei? - ganhei uma metáfora de presente. Um amigo de coração grande fez uma comparação que me deixou muito feliz. Ele visualizou a equipe da qual eu fazia parte como pessoas que tinham na mão um molho enorme de chaves e que passaram a semana tentando achar a chave certa para a cabeça de cada um e ele fez os gestos de quem desfia várias chaves para encontrar a que encaixa, sabe? O mais bonito é que ele disse que não desistimos, que fomos até o último momento do trabalho experimentando chaves que pudessem abrir a cabeça de cada um, com respeito e determinação.



Fiquei muito feliz com a comparação. Parece que nesse caminho acabamos abrindo alguns corações também, inclusive os da equipe de treinadores.


Poderia ser muito para uma semana só, mas ainda tivemos brigas resolvidas por pessoas capazes de sair da infância para a idade adulta em dez minutos; abraços, beijos de montão entre desconhecidos, nettos armando explicações incríveis, silviosantos genéricos, brimos irmãos de sangue, papai noel oriental, exemplos de corações fortis,...nossa, foi muito bom estar com essas 31 pessoas...13, uma trezera, só que invertido.



Queria agradecer muito a eles por me ajudarem a me descobrir mais um pouco. Obrigado a vocês todos. Minha cabeça eu não sei , mas meu coração não os esquecerá jamais.

Termino com a frase de uma das pessoas desse grupo, enviada após a leitura deste texto: "Devemos a Deus tudo o que temos, mas possuímos tudo o que damos". Para que todos nos conscientizemos de nossa riqueza e do que fomos capaz de dividir.



Escrito por Bera às 10h45 PM
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Correntinha literária

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

A amiga Camila enviou então lá vai...o livro estava na cabeceira da cama

"A vitalidade do código vigente é endossada inclusive - e a até com mais verve e estardalhaço, diram alguns - por aqueles que, com maior ou menor frequëncia, não o praticam. A hipocrisia é um tributo que o vício presta à virtude.

Está no livro Auto-engano do Eduardo Gianetti.

Escrito por Bera às 10h03 AM
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Franca honesta e generosa

Em Franca com meu amigo Paulo. Estrada ruim pra chegar, pó sem eira nem beira que alça em poeira,  pedaços de cana agonizando no asfalto, e de repente a igreja. De onde se anda em Franca a igreja aparece.

O Paulo parece comigo em outro lugar. Amor pela família virou tatuagem, pensei pela primeira vez que faria uma pela minha. Atração pelos mares, náufragos e expedições, só o jeito de falar dos francanos é que nos separa. Não dá pra imitar o café e o sotaque de lá.

Imaginem que o Paulo pegou a filha de 7 anos enchendo o vaso sanitário da empresa dele de espuma de nylon, essas de colchão. É que ele vende isso lá então a menina abriu uma peça e picou um monte e encheu o vaso. A mãe bronqueia e como boa mãe pede ao pai Paulo que tome uma providência. Ele então pergunta pra menina se ela prefere ficar de castigo ou levar uma palmada ao chegar em casa. "Uma palmada" ela responde.

Na volta pra casa passam por uma avenida, pelo Mc Donalds e outra avenida e a filha diz pro Paulo: " Pai, depois que a gente chegar em casa, descarregar as compras, tomar um banho e você me bater, você me leva no McDonalds?".

O Paulo é cheio de histórias assim, se admira ao contar cada uma delas, histórias do pai, da infância e de uma curta convivência que tivemos num treinamento e que nos marcou, como amigos, de forma profunda. Nâo sabemos bem o porquê, mas também conversamos tanto que não deu tempo de pesquisar.

Obrigado Paulo. Saiba que dou o exato valor a essas horas que você esteve comigo. Um tempo raro de convivência, admiração e carinho. 



Escrito por Bera às 10h55 AM
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Volta três


Estive ontem com meu amigo N. Ele esteve muito doente e está bastante deprimido. Fiquei muito tocado pela tristeza do seu rosto e pelas coisas que ele me disse. Ouvi longamente e o sentimento era de uma compreensão enorme, senti realmente a tristeza que andava dentro dele, arrastando seus chinelos num corredor escuro, um corredor que conheço bem. O N. é um cara realizador, tem um controle financeiro do seu negócio que é invejável, é organizado, comprometido, faz as coisas com muita qualidade, fala três idiomas, sustenta quatro famílias e criou um cronograma de trabalho para seus funcionários que dá a eles 15 minutos de descanso a cada duas horas de trabalho.


Minha amiga C. mandou notícias ontem também. Além de me dar de presente uma das melhores frases que eu ouvi nos últimos dez anos "Querer é muito difícil - conseguir o que se quer é incomparavelmente mais fácil", minha amiga também ficou bastante triste com o desfecho do episódio do presidente do senado acusado de corrupção. Ficou triste porque se percebeu pensando que não havia mais nada que pudesse fazer, porque ela é da ação, é uma pessoa de tomar posições e defendê-las, faz trabalhos sociais na periferia, organizou uma enorme biblioteca num bairro longínquo e discute na rua com quem joga papel no chão. Até por ser assim terminou sua mensagem pensando em participar politicamente para contrabalançar essa onda de desilusão que vivemos. Acredito que ela faria muita diferença se tentasse.

Eu também não posso dizer que ande alegre. A feiúra da cidade anda me deixando mais triste. A sujeira das calçadas, detritos de animais, milhares de chicletes negros colados ao concreto; a poluição, o desconforto do transporte público e a irresponsabilidade dos motoristas - outro dia um motorista de micro ônibus parou no posto para colocar diesel com mais de cinqüenta pessoas a bordo - tudo isso e mais o momento político e social, os escândalos que se sucedem e são esquecidos, a indiferença e o conformismo das pessoas estão fazendo com que eu me sinta um personagem da Divina Comédia de Dante. Uma pessoa que foi enviada para cumprir uma pena num lugar que só os maus merecem estar. Um ser humano cidadão de segunda classe. Fico pensando o que fizeram as pessoas em Oslo, Helsinqui, Amsterdam, Paris para merecerem gastar suas vidas em cidades onde há bicicletas coloridas grátis e ciclovias para que se vá onde se queira, onde não há cáries nem ônibus lotados, nem uma bituca de cigarro soltando fumaça na sarjeta, onde os crimes são investigados e os culpados são presos. Como se explica isso?


E afinal, o que temos em comum meus amigos N. C. e eu?


Acho que somos sensíveis, apenas isso. Fomos criados assim. Não lemos apenas os classificados ou o caderno de lazer dos jornais, mas recortamos notícias que nos alegram, damos respostas mentais ao incrível mostruário de declarações idiotas (o líder do governo: " O tribunal de contas da união precisa tomar mais cuidado ao usar palavras como indícios de irregularidades"); nosso coração se compadece com os velhos dormindo nas calçadas, pensamos em seus filhos que sofrem com seu desaparecimento; nos pegamos conversando e querendo fazer carinho nas crianças que vendem nos semáforos e nos alegramos com seu sorriso; o rio sujo e negro nos atravessa; a indiferença nos corta na pele. Talvez não vivamos num país bom para os observadores atentos, para sensíveis, para os que, às vezes, se colocam no lugar do outro.


Agora preciso terminar o texto e seria uma boa hora para achar uma solução ou um final feliz, mas não sei se vou conseguir.
Lembrei ainda agora de quando era criança e jogávamos ludo e outros jogos de tabuleiro. Havia uma posição que dizia "volta três casas", por algum motivo insólito mas bem explicado. Não era punição, era parte do jogo, da emoção.  É assim que as pessoas sensíveis se sentem eu acho, tantas vezes pensamos "agora vai", tantas vezes votamos e nos entusiasmamos e na hora H.... Talvez devêssemos, as pessoas sensíveis, nos unir numa passeata, num abaixo-assinado em estrofes poéticas, num partido dos corações partidos para exigir que os eleitos da elite tenham mais sensibilidade, tomem mais cuidado com a gente, quem sabe?


Ah...e para afastar a idéia que algumas pessoas possam ter, de que somos conformistas ou pessimistas vamos deixar bem claro que estamos vivos e bem, trabalhando duro, passeando, ouvindo música, contando piadas, criando filhos e pagando impostos, conscientes da suprema verdade de que a vida sempre continua. Saibam todos que avançaremos sobre os espaços perdidos e já já vamos bater com as quatro pecinhas no centro do tabuleiro. No meu caso as peças verdes, sempre minhas preferidas, antes mesmo que me revelassem ser verde a cor da esperança.

 



Escrito por Bera às 03h19 AM
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Ciao, ci vediamo.




9/8/1927 - 22/8/2007



Meias palavras não vão dizer o que palavras inteiras não conseguiriam. Meu pai morreu. Secamente, assim, é a melhor maneira de dizer. Acreditem, já experimentei várias.


Ele morreu, o que significa que ficamos órfãos eu e o cabo de suas ferramentas todas. Jamais encontrarão de novo uma mão que repita com tal carinho e destreza o movimento exato de suas utilidades. Assim como eu ficaram avulsas.


Foram setenta e oito dias de luta silenciosa no beco sem saída de uma unidade de terapia intensiva. Fortes investidas, melhoras inesperadas, choro mudo e resignação, até que seu coração parasse definitivamente e relaxasse pela última vez.


Fiquei ali ao seu lado, no terceiro subsolo onde o hospital deposita suas baixas, os que não tiveram alta. Dei a ele a camisa com a qual trabalhei o dia inteiro e uma gravata que usei em horas muito felizes. Sobrava em seu corpo vazio o terno de lã que há muito tempo atrás abrigara seus músculos e sua estatura de boi; parecia que uma parte dele já houvera saído e só restassem ali o rosto magro de passarinho abatido, os ombros encolhidos e o sorriso frio sobre o aço inoxidável. Restos do que ele fora. Lembrei que ele não gostava de deitar sem travesseiro e apoiei sua cabeça num saco plástico com suas roupas e pertences de enfermo, ajeitei o colarinho e o nó da gravata, o cinza sobre o azul, o mesmo nó da minha garganta.


Fiquei ali ao seu lado, esperando o carro que o transportaria, com a mente vazia e enorme, os olhos marejados pensando por mim, uma solidão total, morna e pesada.


Passamos a última noite juntos, seu rosto relaxou, sua expressão ficava mais leve a cada amigo que chegava para as despedidas. Lentamente minha infância desfilou entre coroas e velas, de chocolates a bicicletas, praias desertas, sotaques e comidas. Eram alegres essas memórias. Confortava a presença de outros que também foram meus pais, amigos, irmãos, pessoas que de certa forma ele me deixava como herança nesse momento.


Dolorosa despedida, sem beijos, sem gritos, sem arrependimentos. Um simples toque de mãos, um ciao de minha mãe dito como um gemido e fechamos sobre ele a porta que dá para o presente. Por alguns metros o carreguei, última retribuição ao seu colo enorme, e assim ele se foi pra sempre com um tanto do meu calor e muitos de meus sorrisos.


Entendi por esses dias que pouco importa o julgamento que se faça. Um pai não se mede pela régua do bom ou ruim. É da matriz, da referência que sinto mais falta. Com qualidades e defeitos ela estava lá, como um marco, um farol, uma pegada que agora não existe mais.


Viver ficou menos preciso e navego com meia vontade, mas tenho intenção de continuar.


Talvez num outro espaço, onde o tempo seja o do coração e não o das ampulhetas e calendários, eu possa novamente correr pela praia deserta, pular em seus braços e rodopiar entre o céu e a terra, feliz e sem medo.



Escrito por Bera às 11h35 PM
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Eco

Algumas vezes pensei que expressar afeto fosse uma coisa impossível. Cheguei a achar que fosse desnecessária, porque foi assim que me ensinaram. Querendo, pensava eu, dá tranquilamente para levar a vida sem demonstrar, sem expressar, sem essa de muitos beijos e abraços. Passei muito tempo assim com a maioria das pessoas, e por pouco e por sorte não fiquei sem nada pra sentir e mostrar.

Reconhecimentos velados, pais que elogiam seus filhos para outras pessoas, mas não para eles próprios; expressões indecifráveis como dar presentes ou indiretas no lugar de uma frase ou um gesto de carinho; não deixar "faltar nada", compensar com dinheiro, boas escolas, roupas e comida o beijo e o abraço que não aconteceram. Por um pouco de tudo isso eu passei vivendo.

Tive que aprender a dizer obrigado sem ser forçado e sem dizer automaticamente, precisei me esforçar para sorrir de volta, para dar bom dia antes de receber. Lutei uns meses para beijar minha primeira namorada em público, muma calçada da avenida Paulista, morrendo de vergonha de quem estivesse a um quarto de milha...E olha que eu já era adolescente. Foi assim que foi, tudo muito difícil e espremido, como aquelas laranjas secas que precisam de muita força para deixar escorrer uma colher de seu caldo.

Ainda carrego um par de cômodos fechados no meu coração, eu sei, mas já me afeiçoei aos abraços e aos sorrisos. Palavras de carinho também me encantam. Obrigado virou palavra quase que sagrada na minha boca e gosto de dizê-la grifada e em negrito. Quando me elogiam, sorrio, aceito e agradeço. Foi como tirar os ombros do peso, levou tempo, foi e ainda é difícil, mas consegui melhorar muito. Acho que ainda serei um velho meloso como um doce de leite, daqueles que vive elogiando netos no colo, beijando noras na testa e presenteando bombocados.

Estou dizendo tudo isso porque ontem ficou claro pra mim mais um aspecto do expressar afeto. Mais uma vez reuni coragem e deixei claro, diante de um grupo, por abraços e palavras, o carinho que sentia por uma pessoa, quase estranha (embora eu sentisse nela muitas semelhanças). Eu não sei porque resolvi fazer, talvez não fosse o lugar e a hora, mas fiz porque parecia que algo me dizia faz, não tenha medo, não deixe passar, coisas assim e eu agora estou pra dar ouvido a essas vozes, sabe?

Acontece que do outro lado havia dificuldades parecidas com as minhas e, embora eu nada soubesse, esse pequeno gesto descobriu raízes enterradas há muito tempo. Descobriu sem fazer força, aos pouquinhos, raízes doloridas que há muito tempo não recebiam luz.

Quando viu expostas essas raízes de sentimentos antigos, ao invés de envergonhar-se ou recusar-se a olhar, essa pessoa começou a falar delas, com emoção e segurança enormes, sem exageros, disposta a não mais calar, não mais aceitar ser menos do que é. Foi como se retomasse uma decisão tantas vezes pensada, como se retirasse uma mordaça invisível, foi como um desaguar manso numa represa de águas claras e tranqüilas que traziam para a superfície a auto-consciência e a possibilidade de mudar. Um alívio, inclusive pra mim.

Percebi na hora a grandeza e a delícia daquele momento. Demonstrei a ela toda minha admiração, olho no olho, na medida do possível e do momento ocultei muito da alegria e do espanto verdadeiros,  mas abraçei cada palavra e cada sentimento como se os adotasse, como filhos adotivos. 

Vou cuidar bem deles, alimentá-los e fazê-los crescer em mim como se fossem meus, tão parecidos que somos, tão semelhantes e familiares. 

Ontem eu entendi que, ao ser expresso, o afeto faz eco.

Foi um momento de encontro que relembrarei para sempre.

Texto dedicado a todas as pessoas que se reuniram na cidade de Avaré por alguns dias para aprender juntas. Chuva, frio, café quente e calor humano.

Foto: Represa de Avaré



Escrito por Bera às 01h28 AM
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