impressões de ontem


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Uma história que eu ouvi conta que num pequeno monastério morre, de repente, o mais sábio dos monges, aquele que era fonte e amparo de todos os outros monges. Numa cerimônia improvisada, alguns tentam, sem sucesso, falar do companheiro morto. Todas as mentes estão tomadas pela perda e pelo sofrimento inevitável, e então o silêncio vence e se espalha entre eles por meia hora. De repente levanta-se o monge cozinheiro, o mais humilde deles, com uma panela de barro nas mãos. Todos a reconhecem, é a panela de todo dia, a mais útil, aquela de onde, por tantos anos serviram-se do alimento. O monge cozinheiro então afasta as mãos da panela e ela cai, espatifando-se no chão em muitos pedaços. Nada mais foi dito. E todos compreenderam a mensagem.

Minha amiga U me visita às vezes. Amiga, cliente de coach, colega de profissão, uma pessoa por quem tenho grande admiração e profundo respeito. Hoje ela me visitou - como amiga - e falamos de algumas experiências recentes. Um contato íntimo com uma modalidade de negócio muito comum, aquele que manipula pessoas para conseguir altos lucros e dar visibilidade a poderosos, foi o início da nossa conversa. Minha amiga U, vivenciou e foi parte ativa de um negócio assim. Claro, isso provocou nela sofrimento e preocupação, principalmente porque havia outros envolvidos, pessoas que nela acreditaram e viajaram para longe acreditando que mostrariam seu trabalho, ganhariam mídia e, por que não, algum dinheiro...mas a coisa fracassou, e não houve ganho para nenhum deles. A amiga U esteve com eles o tempo todo. Limpou espaços, arrumou produtos, aconselhou, hospedou e cuidou da alimentação de cada um em tempo integral, estavam num país estrangeiro e ela era a única que falava o idioma. Ao final buscou a palavra deles, num jantar com todos reunidos, queria saber da experiência, que desabafassem, mas ninhguém falou. Depois, sozinha no carro, chorou muito por ver frustradas suas expectativas. Seu caráter reclamando da injustiça de ganhar onde outros perderam, de convencer outros a participarem de uma má experiência, do silêncio, e também por saber que o fracasso não serve para muita coisa, às vezes. Não há lição alguma, não há moral da história, há apenas um fracasso mesmo como fonte inesgotável de dissabor e mágoa. Claro que as pessoas não colocaram nela a responsabilidade, até porque ela vendeu a viagem e a oportunidade deixando claros os riscos envolvidos, fez sua venda sem promessas, sem enganação. Todos reconheceram sua boa intenção, mas ficou para ela o gosto ruim. O fato todo me recordou uma frase que que li ainda ontem, do ex ministro, antropólogo e educador Darcy Ribeiro, que passei a ela, ele disse: ". Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil  desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu". Não sei se serve exatamente, mas concordamos, eu e ela, que o dinheiro não será nunca o foco de nossas vidas, e até para isso há um preço que deveremos pagar.

Depois conversamos sobre a mãe da minha amiga U que faleceu em dezembro passado. Estavam lá todos os filhos para o Natal, vindos de longe e de outros países para passar o Natal e sua mãe morre subitamente. Assistimos a um vídeo onde, meses antes, minha amiga pede que sua mãe fale algo bem legal para que ela pudesse lembrar ao voltar ao Brasil. Sua mãe fala dos momentos e das conversas que tiveram juntas, de como esses momentos a ajudavam, e como desejava que fossem mais frequentes. Um desejo materno universal, pude sentir nos olhos dela o que não entendia no idioma estranho para mim. Depois ela me mostrou um vídeo onde depositavam as cinzas de sua mãe ao pé de uma árvore. Em seu país você pode comprar espaço em algumas florestas para depositar cinzas ao pé de árvores imensas. Minha amiga U me conta que dias antes sua mãe havia dito sentir-se uma madeira que havia ido com a correnteza, parando aqui e ali, por vários rios até chegar no mar. Agora estava prestes a ser devolvida à praia onde um escultor a utilizaria para sua obra, que assim se tornaria quase eterna. Minha amiga e seu pai conseguiram então um pedaço de madeira e fizeram 5 ou 6 esculturas, que estavam ao lado da árvore escolhida junto a um anjo. Sua mãe simpatizava com anjos. Cantaram, conversaram, retiraram tudo da floresta, pois nada que não pertença à floresta pode ser deixado lá, e se foram, cada filho levou uma escultura que poderá admirar enquanto viver. Na árvore apenas um pequena placa de metal com o nome e sobrenome.

Minha amiga também me falou de uma viagem de moto que fará com seu pai, em agosto próximo. Ele tem 80 anos. Vão percorrer uma grande distância juntos, e ela já está treinando andar de moto. Peço a ela, mais por mim do que por ela, que tente colocar no papel essa viagem, talvez porque eu mesmo não tenha feito uma viagem assim (e nunca mais poderei fazer) e nesse momento sinto um enorme arrependimento.

Na saída a amiga U me presenteia com um vaso de cerâmica lindo, me explica a técnica de queima da peça, "raku", queimada duas vezes, uma coisa de uma beleza imensa. Me emociono e penso no vaso da história do início deste texto. Ao contrário de espatifar-se e perder-se em pedaços, minha amiga U recolheu, paciente e conscientemente, seus pedaços em milhares de quilômetros e os reuniu para si mesma, para que sua vida tenha mais sentido, buscando a todo custo entender-se melhor. Sinto que no pequeno vaso que me deu, talvez como símbolo das conversas e momentos que tivemos juntos, estavam um ou dois pedaços desses que ela reuniu, misturado com alguns pedaços meus que eu mesmo recolhi e percebi que assim ela havia encontrado um jeito de me incluir, na justa medida, nessa busca desses últimos anos. Girei o pequeno vaso em minhas mãos, observando cada curva, e pensei que a argila poderia muito bem ter vindo de uma floresta, que todo o dinheiro desse mundo não pagaria esse presente e que, em seu vazio, ele continha toda a vida e todo o sentimento do mundo, porque é assim, vida e sentimento podem ser enormes mesmo em pequenos volumes.



Escrito por Bera às 12h34 AM
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