impressões de ontem


Jurandyr e o talento

Jurandyr cresceu feio e magro na periferia da zona leste. Entre o córrego e a Cohab onde morava existia um deserto de lixo e detritos onde ele empinava pipas e catava coisas para vender. Jura (é assim que os amigos o chamavam, com exceção da avó que dizia Jurandí, assim com acento) catava latas, plásticos, embalagens e separava tudo por tamanho, cor, respeitando os tons e as formas. Assim conseguia dinheiro pros salgadinhos por quilo na venda do portuga.

Jura cresceu feio e magro, como aliás já disse, mas é que sua feiúra e magreza ultrapassaram a infância e a adolescência e o acompanharam até adulto. Fazer o que. Continuava vendendo lixo, agora para a cooperativa e ainda comprava uns comes na venda do portuga, que enricara, tinha carro do ano e uma mulata lindona pendurada nele, junto com as correntes de ouro. Além do lixo o Jura havia feito alguns cursos por correspondência. Não teve dinheiro pra comprar o kit básico para o curso de eletrônica de rádios e então só terminou o de vitrinista. Terminou e gostou. 

Procurou por muito tempo um emprego de vitrinista na rua São Caetano mas não conseguiu. Todas as lojas tinham designers especializados ou uma Dona Darcy que estava lá ha vinte anos e dava conta do recado. Suspeito também que a feiúra do Jura impediu sua entrada no mundo fashion. Sabe como é...

Os anos passam (aqui também enquanto você lê esse texto) e a única coisa que o Jura conseguiu, além de organizar todos os vidros de material de limpeza da sua mãe, roupas dos irmãos, todos os quadros da parede do apartamento da CDHU, (todas as obras recolhidas do lixão, naturezas mortas, acrílicos sobre tela, cristos de folhinha com um ar vanguardista, manchados de sujeira e borra de café), tudo o que conseguiu foi passar no concurso da PM. Sim, da PM. 

Desde o início, como calouro na corporação, o talento para a arrumação, organização e o senso estético do Jura o diferenciaram. Feiúra já não era problema e assim, rapidamente, ele chegou à Rota e ao posto de sargento. 

Semana passada, ao atenderem a um chamado na zona leste, Jura e seus colegas encontraram o portuga no lixão, corpo todo torto parecendo um boneco, boca cheia de sangue pisado e marcas de correntes arrancadas à força do pescoço. Da mulata nem sinal.

Após algumas diligências e tapas na orelha Jura e seus colegas prenderam o bando que assassinou o portuga. Jovens como ele, filhos do lixão, feios e desamparados. No apartamento do CDHU apreenderam fuzis, balas traçantes, granadas, pistolas e um enorme estoque de pacotes e papelotes coloridos de drogas variadas.

Antes que a TV chegasse Jura organizou tudo: por ordem de volume e perspectiva, balas, granadas, pistolas, fuzis, drogas, balanças, seringas...tudo tudo foi arrumado de uma forma genial, uma arranjo de qualidade indiscutível tendo ao fundo a bandeira do batalhão em criativo drapeado.

A foto do arranjo percorreu as primeiras páginas de todos os jornais do Brasil, para orgulho do Jura e dos colegas da corporação. Algumas fotos estão enquadradas na sala do coronel, e uma delas ganhou espaço no apê do Jura, que ainda mora com a mãe no CDHU. Entre o cristo de vanguarda e a natureza morta, tá lá. O talento do vitrinista que continua vivo.



Escrito por Bera às 12h17 AM
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