impressões de ontem


O que se pode e o que não se pode falar

 

Ontem o Dagoberto, jogador do São Paulo, disse a um repórter que não iria mais fazer comentários sobre o time, fosse qual fosse o resultado, porque tudo que ele diz vira polêmica e alimenta crises. O mesmo já aconteceu com outros atletas, como o Marcos, goleiro do Palmeiras que disse num final de partida que o resultado negativo se devia à pouca produção do time, quase foi apedrejado por isso, e desse dia para cá mantém silêncio diante dos jornalistas.

Fiquei pensando que esses acontecimentos podem ser perfeitamente compreendidos dentro das famílias e organizações. Aliás os técnicos de futebol vivem querendo transformar o time numa família e os dirigentes sempre falam em futebol empresa, e no final os times não são nem uma coisa e nem outra.São grupos que se mantêm juntos por objetivos de curto prazo ou por ganhos financeiros pessoais.

As famílias, as organizações e os times (sejam de qualquer esporte ou empresariais) fazem parte de uma comunidade que tem uma cultura, um modo de pensar e fazer as coisas. Em nenhum desses grupos se exercita o falar claramente o que se pensa e muito menos dizer de forma assertiva o que se pensa do comportamento das pessoas envolvidas.

Famílias, times e grupos organizacionais convivem diariamente com falhas de comportamento, falta de comprometimento, boicotes e outros dramas sem que se possa interpelar ou discordar. Todos se calam e sofrem as consequências desse silêncio com medo de que sua interferência possa provocar um conflito.

Temos ainda um longo caminho, em todos esses grupos, para exercitar o conflito. Não digo vivenciar porque ainda nem o aceitamos, por isso digo exercitar.  Quando o aceitarmos como etapa comum de um convívio saudável aprenderemos até a provocá-lo. Sim. Provocar conflitos pode ser algo muito positivo e produtivo. Uma espécie de antídoto contra a acomodação e a estagnação das relações dentro de um grupo.

Interessante também é notar que a torcida, os que observam o conflito mas não fazem parte dele, admiram o Dagoberto, o Muricy, o Marcos e outros que falam o que pensam, que com transparência abordam o conflito sem medo e pagam o preço dessa transparência. Sofrem com o controle dos técnicos e dirigentes, que se apressam em jogar os fatos para baixo do tapete e com a mídia que coloca uma lente de aumento de intenção duvidosa em todos os assuntos porque sabe que lavar roupa suja em público dá audiência, justamente porque o conflito não é, para a maioria, uma coisa normal, uma ocorrência corriqueira de qualquer relacionamento entre as pessoas de um grupo.

Aguardo ansiosamente pelo dia em que teremos uma câmera no vestiários e os jogadores, técnicos, dirigentes e a mídia (em silêncio) poderão presenciar o conflito completo, com ou sem confronto, até sua solução. Tudo o que hoje se diz que deve ser resolvido internamente sendo resolvido externamente, para todo mundo ver e aprender.

 



Escrito por Bera às 03h43 AM
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