impressões de ontem


Transparência

      

Não sei bem qual foi o objeto que chamou minha atenção pela primeira vez. Acredito que tenha sido uma caneta tinteiro, os fabricantes faziam modelos transparentes para que os clientes pudessem ver a engenhosidade do seu mecanismo, do seu funcionamento. É de fato o primeiro objeto transparente de que me recordo. 

Havia também o vidro. Litros de leite, janelas multicoloridas, muitas casas tinham janelas com vidros verdes, vermelhos, amarelos, e eu juntava cacos desses vidros quebrados e guardava como se fossem pedras preciosas. Havia lentes. Ganhei uma certa vez. Com ela na posição certa, em relação ao sol, era possível por fogo em qualquer coisa (pensando bem quem será que foi o maluco que deu isso na mão de uma criança?). Havia os vitrais, aquele do Mercado Municipal, os da igreja com cenas de santos e mistérios, os relicários com tecidos e ossos dos santos de Jerusalém, havia as bolinhas de gude e seus padrões de transparência e cor inesgotáveis.

Celulóide. Os relógios, alguns pelo menos, não tinham vidro. Em seu lugar havia celulóide. Eu procurava celulóides de relógio nos relojoeiros (acreditem, eles eram muitos), e alguns davam os riscados e amarelados pra gente. Eles sabiam que aquelas escamas de plástico pré histórico iam virar craques de futebol nos campos de futebol de botão, por isso nos davam. Eram transparentes mas tinham um jeito envelhecido, parecia que morriam aos poucos.

De fato não há explicação para a atração que eu sinto até hoje por objetos transparentes. Canetas Bic, isqueiros chineses, bolas de vidro, garrafas coloridas de club soda no mercado de Santelmo, chaveiros baratos, pedras de âmbar nas galerias da rua Sete de Abril, cristais de rocha...não importa. É transparente eu gosto. Vai entender.

Descomplica olhar para uma coisa e vê-la por dentro, revelada antes mesmo que eu tivesse uma dúvida. Não pensem que simplifico. O segredo da coisa continua, você pode olhar quanto quiser para uma Parker 51 transparente, escrever com ela, tocá-la, mas os segredos continuam ali. Como a tinha líquida escorre na quantidade certa, nem menos, nem mais? 

Transparência está em tudo: na natureza, nas roupas, plantas, nos projetos de tudo que a indústria deseja demonstrar. Ela me atrai como um espelho de verdade, não esses falsos que refletem, mas aqueles que levam você pra dentro deles, pra outra dimensão.

Algumas pessoas também falam em transparência no relacionamento entre pessoas. Acredito, mas acho difícil. Talvez por breves momentos, talvez entre velhos amigos sem medo de serem brilhantes, ridículos, estúpidos, ternos, contando as velhas piadas repetidas de sempre. Aquele tipo de amigo que quando você olha não vê, embora saiba que ele está lá.

Até hoje não consigo evitar. Andando pela rua ou onde estiver, coisas transparentes fazem minha cabeça virar. Se forem objetos pequenos, com certeza vou pegar na mão e levar à altura dos olhos e olhar através dele. Um gesto que repito desde que me entendo por gente. Talvez a única coisa, o único espanto, curiosidade e rito que ainda traga da infância. 



Escrito por Bera às 01h36 PM
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