impressões de ontem


Geração Y

Tec, tec, tec...Vá dormir filho!

Ninguém responde.

Era sempre assim. Madrugadas e madrugadas o garoto inclinado sobre aquele retângulo bege, fazendo não sei o quê.

Jovens! Pensou ele. Não se importam com a dura luta pela sobrevivência, têm a cabeça nas nuvens, imagine ficar horas com o olhar fixo naquelas coisas, não se importar com o sol, o vento, os animais soltos, o perfume das plantas. Pessoalmente achava muito egoísta essa nova geração. Preocupavam-se com coisas sem importância, viviam perguntando o porquê das coisas, até aquelas que a natureza explicava perfeitamente. Tudo o que faziam tinha que ser apreciado. Mesmo como pai já se cansara de emprestar adjetivos encorajadores para todas as bugigangas que o filho adolescente lhe mostrava. Ele devia é enfrentar o mundo como ele é. Meus pais encararam perigos num mundo muito mais adverso, sem os confortos que temos hoje e se estamos mais aquecidos e alimentados devemos a eles essa possibilidade.

Os ruídos externos não o deixavam dormir e o bater ritmado do filho fazia um contraponto irritante. O dia quase amanhecia. A esposa dormia profundamente e ele invejou sua capacidade de não se incomodar com os ruídos, a claridade, as coisas erradas. Ela se orgulhava das mãos habilidosas do filho e pelas paredes pendurava todos aqueles desenhos e figuras sem sentido que o menino produzia. Sem censura, sem julgamento. Mesmo não compreendendo nada do que continham. Orgulhava-se porque ele era diferente. Diferente! Pensou. Quero ver quando tiver que sair do calor do seu mundinho para matar um leão por dia como eu. O que será dele? E o pior é que havia outros da idade dele que trocavam objetos, que passavam também as madrugadas insones completando não sei que tipo de trabalho que depois os alegrava e os excitava a cada encontro pelos cantos da casa.

Levantou-se e começou a preparar-se para enfrentar o dia. No seu canto o filho dormia enquanto a luz fraca iluminava seu rosto. Ao lado dele toda aquela parafernália que teimava em carregar quando viajavam, um peso inútil. Aos seus pés mais um de seus trabalhos: um disforme pedaço de pedra com sinais incompreensíveis, poeira e lascas para todo lado, dedos feridos encolhidos nas palmas das mãos.

Jovens, pensou novamente. Acho que estão todos ficando loucos. E saiu, para matar seu leão diário.



Escrito por Bera às 03h36 AM
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