impressões de ontem


 

 Fiesta "Las Alasitas" tradição boliviana

Tenho curiosidade pelo que vai dentro das pessoas, seus costumes, comidas e comportamentos.

Como já escrevi por aqui os bolivianos são a última onda de imigrantes aqui no Brás, SP. São gente mansa e que gosta de se reunir em feiras e esquinas. Tenho contato com alguns - poucos infelizmente -  e por esses dias conversando com uma amiga fiquei sabendo de uma nova. Uma feira ou festa que eles fazem e que ocorre também aqui em São Paulo no dia 24 de janeiro. Fiesta ou Fiera de las Alasitas.

Minha amiga boliviana Virginia me explica a festa "de las cosas pequeñas". Quis saber mais e ela me contou que tudo o que você quiser conseguir pode achar, em miniatura, nessa festa: Casa, carro, dinheiro, barco, profissão, tudo. Se quiser um amor (homem) compra um galo em miniatura, se quiser uma companheira, uma galinha pequenina.

Tudo garantido pelo Deus Eleko (da abundância), que é resquício dos tempos pré colombianos

O tal Deus Eleko, hoje representado por um jovem andino cheio de alimentos e dinheiro pendurados em seu corpo dá uma idéia de como os aimarás e quechuas sabiamente misturaram suas crenças com as dos conquistadores brancos, como índios e africanos fizeram por aqui. 

Festas populares são incríveis. O impulso de celebrar é algo que perdemos nesses dias modernos que vivemos. O impulso de celebrar em grupo, de compreender que estamos juntos neste espaço e neste tempo e devemos dançar sobre as boas colheitas que garantem nossa sobrevivência. O sentido de "garantir" esse período após uma boa colheita e então beber e comemorar sem pensar no amanhã é uma coisa muito atraente pra mim, que vivo querendo ser responsável demais.

Mas uma coisa me deixou mais encantado do que o festejo em si

O que me emocionou, no relato da Virginia, foi a forma delicada de querer que a festa propõe. Comprar pequeno e esperar ficar grande. São assim os sonhos, não? Começam como um sopro e vão crescendo dentro da gente alimentados pela força de vontade, expectativa e paciência.

Alguns não crescem, ficam miúdos mas sobrevivem, outros encolhem, até desaparecem, alguns não chegam a nascer, o que é triste.

Sobretudo há os que nos espantam com seu crescimento, que nos alegram quando os vemos grandes e fortes nos encorajando a nos sentirmos grandes e fortes como eles. E ainda há sonhos que crescem em gerações. Aqueles que plantamos para que outros colham, como oliveiras e jabuticabeiras centenárias outras bocas provarão os doces frutos. Esses talvez sejam os mais nobres e intensos.

E a usted? O que te dará Eleko? 

Abaixo um texto de fev 2010 que retirei do blog http://bolivianasregistrosdeumaantroploga.blogspot.com/2010/02/alasitas-saudades-e.html da antropóloga Caroline Cotta de Mello Freitas. Ela explica com detalhes essa festa típica num texto muito gostoso.

Feria de las Alasitas

No dia 24 de janeiro começa em La Paz a Feria de las Alasitas. Essa feira tem como principal característica a venda de miniaturas que tem uma finalidade ritual. Essa finalidade é que elas se tornem realidade sob os auspícios do Ekeko (adiante explicarei quem ele é). A feira, é importante dizer, coincide com o solstício de verão.
A tradição da feira teve início em 1781, quando o governador de La Paz, Sebastián Segurola, determinou que se celebrasse uma festa anual em homenagem à divindade pré-colonial chamada Ekeko. Essa homenagem se devia ao fato de a cidade de La Paz ter sobrevivido ao cerco comandado por Túpac Katari e que durou 109 dias (em uma das maiores rebeliões indígenas contra o domínio espanhol na região do Alto Peru).
Desde então se realiza esta feira em La Paz. A feira inicia ao meio dia do dia 24 de janeiro e dura aproximadamente 3 semanas. A feira também acontece em outras cidades da Bolivia, mas a maior e mais importante é a paceña.
Há, principalmente, miniaturas de coisas que fazem parte do universo doméstico, como fogões, geladeiras. Há também casas, carros, malas cheias de dinheiro. Enfim, todo aquele bem material que alguém possa desejar. Essas miniaturas são compradas e "oferecidas" ao Ekeko, que vai trazê-las para quem pede. Uma coisa interessante é que também se podem comprar miniaturas de passaportes, para quem deseja viajar; diplomas, de graduação e pós (comprei um de tese de doutorado... por si a caso... rsrs); documentos de propriedade de casas, apartamentos; miniaturas de cesta básica, carrinho de supermercado cheio; miniaturas de lojas (se pode escolher de que tipo de produtos); certificados de boa saúde; contratos de trabalho; miniaturas de vans e caminhões dos mais variados tipos... enfim, quase tudo que se possa imaginar. Ah!! Também existem os galos e as galinhas!! Mas esses não se pode comprar, para que sejam realmente eficientes devemos ganha-los!! Eles garantem amor. Também se encontram miniaturas de "famílias", ou seja, o galo, a galinha e seus ovos. Estes são para quem quer ter filhos e, seguindo a mesma lógica, devem ser recebidos como presente. A feira é composta por MUITAS banquinhas onde se encontra todo tipo de miniatura (MESMO!!) e as pessoas chegam cedo, para garantir que conseguirão encontrar tudo que querem/necessitam. Cheguei a feira ás 11 da manhã e estava LOTADA. Como sempre, velhos, adultos, crianças, palanque de políticos (García Linera tinha acabado de fazer o seu discurso quando cheguei), muita música e banquinhas de comida [que serviam, principalmente o Plato paceño, que consiste em um choclo (um tipo de milho que tem os grãos grandes), um pedaço de queijo frito ou natural e favas cozidas em sua vagem].
As pessoas chegam cedo porque depois de comprar tudo o que se deseja, e de, ocasionalmente, ganhar seu galo/galinha, ao meio dia do dia 24 é preciso submeter todas as coisas a um ritual, a Ch'alla. A Ch'alla é um ritual andino que inclui aspergir álcool ou vinho nas coisas, jogar pétalas de flores, defumar com incenso e tudo isso ao dizer algumas orações que misturam tradições pré-hispânicas e católicas. Esse ritual, em geral, é realizado por pessoas de origem aymara ou mestiços.
As minhas coisas (porque além do diploma de doutorado, comprei uma casinha, uma mala de dinheiro, um carro, um certificado de boa saúde, entre outros... rs) foram Ch'alladas por uma senhora aymara, bem velhinha, que perguntou o meu nome e depois começou a jogar o vinho e as pétalas, na sacolinha onde estava tudo, incensou a dita sacolinha, dizendo algumas coisas em aymara. A Ch'alla é paga, e há uma corrida às senhoras que parecem mais "confiáveis," porque aparentemente mais velhas e/ou com mais traços de aparência aymara, para que a Ch'alla seja feita, exatamente, ao meio dia. Segundo meus amigos paceños, Ch'allando as coisas nessa hora do dia 24 tudo é mais "potente" e as chances de o Ekeko atender aos teus pedidos é maior. Pelo sim, pelo não, fiz tudo como eles e recomendaram. Importante: devemos guardar as coisas que compramos e devidamente Ch'alladas (ou seja, melecadas de vinho/álcool, com pétalas de flores e etc) em um lugar escuro e onde não toquemos muito (como no fundo do guada roupa, por exemplo). Perguntei até quando deveria guardar minhas coisas, mas meus amigos não souberam me responder... enfim, vou levá-las para São Paulo. Quem sabe lá os auspícios do Ekeko também cheguem... 

Quem é o Ekeko?
O Ekeko é um Deus da abundância, da fecundidade e da alegria. Tem origem aymara e ainda é bastante popular no altiplano andino. Se acredita que o Ekeko traz abundância para uma casa em que se lhe oferecem álcool e cigarros.

 



Escrito por Bera às 02h19 AM
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