impressões de ontem


Cambia, todo cambia

(Post em homenagem a Mercedes Sosa, falecida em 4/10/2010)

As décadas de 60 e 70 foram duras aqui na América Latina, foram tempos marcados por ditaduras menos e mais violentas controlaram que aterrorizaram e mataram milhares de pessoas.

Alguns fugiram, outras ficaram e lutaram armados, resistiram. Alguns fizeram do teatro, livros e música suas armas e combateram assim contra os que lhes tiravam a liberdade.

A mudança era um tema recorrente de canções que se opunham ao autoritarismo. Eu sabia várias delas e as cantava pra mim mesmo, sem heroísmo e sem intenção de derrubar governos, apenas pensando na dor e na coragem daqueles que as cantavam e tinham seus dedos cortados ou eram atirados vivos de um avião no meio do Atlantico sul.

Os grupos de músicos latinoamericanos eram muitos e ouvíamos com atenção suas canções. Eu gostava particularmente das que falavam em mudança, por que eu era jovem e me parecia impossível que eu fosse viver no mesmo mundo que meus pais e avós. Não. Para que eu pudesse crescer ele teria que mudar, e muito, porque eu decididamente não concordava com quase nada do mundo como ele era.

Hoje me esforço para encarar as mudanças, a falta de crença no que é político, a falta de força para combater o autoritarismo, ainda presente usando outras fantasias pra se disfarçar, as mudanças tecnológicas (como este blog que nunca pensei que fosse existir) e por aí vai.

Uma canção em particular era querida demais porque tinha um refrão que dizia "Cambia, Todo Cambia" que quer dizer muda, tudo muda, composta pelo Julio Numhauser componente de um desses bravos grupos de músicos chilenos que cantavam enquanto a ditadura os perseguia. O grupo se chamava Quilapayún.

Coloco um vídeo aqui da Mercedes Sosa, argentina de Tucumán, cantando a canção. A letra e a música são sempre as mesmas. A mudança é que não é a mesma. Ao ver esse vídeo pensei que o autor não falava apenas de um momento histórico, mas falava da eternidade e de como é muito mais belo um mundo e um universo onde tudo muda sempre. Hoje penso que ele queria que celebrássemos as mudanças como uma obra de arte, como um por do sol, como uma vida, do nascer ao morrer. 

Há uma última estrofe, onde o Julio diz que só não muda o amor pelas coisas que amamos, lugares e pessoas. Isso também não mudou pra mim e hoje acho quase impossível viver em qualquer lugar onde não haja muito amor pelas coisas, pessoas e canções. Envio a canção e a letra para vocês com a esperança de que esse sentimento de amor prevaleça sobre tudo, como a voz única da Mercedes sobre a multidão apaixonada.

TODO CAMBIA

(Julio Numhauser)

Cambia lo superficial  también cambia lo profundo

cambia el modo de pensar cambia todo en este mundo

cambia el clima con los años, cambia el pastor su rebaño

y así como todo cambia que yo cambie no es extraño
cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo

cambia el nido el pajarillo cambia el sentir un amante
cambia el rumbo el caminante aunque esto le cause daño

y así como todo cambia que yo cambie no es extraño
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia

cambia el sol en su carrera cuando la noche subsiste

cambia la planta y se viste... de verde en la primavera
cambia el pelaje la fiera cambia el cabello el anciano

y así como todo cambia, que yo cambie no es extraño...

pero no cambia mi amor por mas lejos que me encuentre

ni el recuerdo ni el dolor... de mi pueblo y de mi gente
y lo que cambió ayer... tendrá que cambiar mañana

así como cambio yo... en estas tierras lejanas
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia



Escrito por Bera às 03h22 AM
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
    Outros sites
      nuno bianchi
      Drivein
      Blog do Carlos Moro
      Tapetes de Penelope
      Caderno de Anotações
      Spoiler
      Gandalf
      Fiteiro
      Primícias Poéticas
      Releituras
      Il Cavoletto di Bruxelles
      Carson McCullers
      Adélia Prado
      Poesia Pablo Neruda
      Poesia Alberto Caeiro
      Poesia Manoel de Barros
      Poesia Mario Quintana
      Nelson Rodrigues
      Ella Fitzgerald
      Slow Food