impressões de ontem


Luzes, sombras, pássaros e almas

 

Durante um evento, na noite do nono aniversário do desastre de 11 de setembro que destruiu os dois edifícios em Nova Iorque, os organizadores projetaram duas colunas de luz, gêmeas, sobre o local da tragédia.

Assim que apontaram para o céu os dois raios de luz foram invadidos por pequenos objetos, milhares deles, girando e brilhando sob a luz intensa. Algumas pessoas pensaram ser papéis levados pelo vento, outros imaginaram uma tempestade de neve fora de época, era difícil não pensar que de alguma forma as almas dos que pereceram sob os escombros flutuava como que aceitando a homenagem.

O mistério foi rapidamente elucidado: Eram pássaros que segundo um especialista, John Rowden, utilizam aquela área como um corredor migratório. A luz forte atrapalhou seu sentido de navegação e eles ficaram presos no raio de luz. Ornitologistas chegaram a calcular em 10.000 os pássaros que voavam dentro da luz, eles conseguiram inclusive identificar várias espécies diferentes. Também citaram outros eventos com luz onde a mesma coisa aconteceu.

Achei o vídeo muito lindo. A explicação também. Eu resumi porque ela era bem mais complexa do que expus neste post. Aliás foi isso que me chamou a atenção. A complexidade e a quantidade de detalhes da explicação do fenômeno.

Sou considerado por meus amigos um cara racional. Uma amiga até diz que por ser do signo de aquário eu sei (ou sei quem sabe) uma explicação para tudo o que acontece e o que ainda vai acontecer no universo. Talvez o John Rowden tenha servido de espelho pra mim. Talvez tenha sido a música que acompanha o vídeo, talvez seja excesso de televisão na infância, o fato é que eu comecei a achar a racionalidade da explicação uma manobra para não me deixar ver o que realmente aconteceu.

Li uma história há muito tempo sobre um fato ocorrido numa aldeia da Polônia, em 1939. Os habitantes - na maioria judeus - dessa aldeia, cercada de florestas, começaram a ouvir, de repente, durante a noite, um uivo, um som assustador. Foram ao rabino para pedir explicações e ele enviou uma pessoa na direção do som, para que verificasse o que era. Acontece que ele decidiu enviar um louco. Isso. O louco da aldeia.

No dia seguinte bem cedo o louco retorna e conta a todos, reunidos na praça, que o som vinha de uma árvore oca, devorada por cupins, que havia tombado na direção do vento sul. Ao soprar, o vento era canalizado pelo tronco da árvore e ao sair pelos galhos mais finos, ocos também, emitia esse som que parecia um uivo, um grito, mais grave ou mais agudo, dependendo da espessura do galho pelo qual entrava.

O rabino ouviu e calmamente pediu a todos que pegassem seus pertences e algum alimento e colocassem numa pequena mala, bem leve, por que ele guiaria a todos para fora da aldeia naquela mesma noite. Claro, todo mundo perguntou o porquê disso, mas o rabino se recusou a dar explicações.

Cerca de metade da aldeia saiu com o rabino. Os que não acreditaram na história do louco ou na determinação do rabino foram exterminados dois dias depois pelas tropas nazistas que invadiram a Polônia em 1º de setembro de 1.939. Ninguém foi poupado.

Ao saber as más notícias todos foram ao rabino, agradecer e perguntar por que ele havia tomado aquela decisão salvadora.

O rabino então disse: Foi o excesso de detalhes da narrativa do louco, a racionalidade quase que irreal com que ele contou a história me fez tomar a decisão que tomei.

Deixa eu voltar para os pássaros e as luzes. Ok, pássaros. Mas e se os pássaros estivessem ali para dizer alguma coisa? E se eles desenharam, em seu idioma, no ar, em letras maiúsculas e legíveis a mensagem que só um dia entenderemos? E se a contagem dos cientistas estivesse errada, um erro provocado pelo movimento e pelo excesso de luz e eles fossem 2.966, o exato número de mortos naquele dia? E se a grande variedade de pássaros estivesse ali para representar a grande variedade de cores e credos das pessoas que morreram nos desabamentos? E se dentro do brilho intenso os pássaros nos mostrassem, ao entrar e sair, a nossa eterna condição de seres de luz e de sombra?

Seria muito Mario Quintana fazer esta última pergunta, mas vá lá...e se as almas realmente encarnaram em pássaros como uma compensação maravilhosa para a horrível prisão que deve ter sido agonizar sob toneladas de concreto, aço, irracionalismo  e estupidez?

E se...?



Escrito por Bera às 02h43 AM
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