La Mia Nonna

Minha nonna era exatamente assim. Quando colocaram esse boné em sua cabeça, de surpresa, ela não se irritou, não deu ouvidos às risadas dos amigos e da família. Quando apontei a Petri 35 pra gravar esse momento ela não se envergonhou...pelo visor eu a vi juntando as mãos no colo e esticando a coluna pra uma postura ereta já então difícil de manter. Depois eu vi seus olhos verdes tomarem uma expressão doce e compenetrada e sua boca me presentear esse sorriso de Mona Lisa que dizia mais ou menos...tá...eu aceito a brincadeira, mas do meu jeito. Foi um segundo, pra ser exato foram 1/60avos de segundo e um flash. E ali eu aprendi que dignidade é aceitar as coisas como elas são, mas sempre reservar-se o direito de modificá-las à sua maneira. Eu passei a infância com essa pessoa. Eu aprendi tantas coisas com ela que mil blogs não seriam suficientes para contar. Ditados inesquecíveis (Uomo e donna in stretto loco, secca paglia appresso al foco) que ela sempre dizia no momento certo, canções perdidas no tempo (Il primo amore non si scorda mai) que ela cantava enquanto batia suas roupas no tanque; aprendi a falar italiano apenas conversando com ela, aprendi a ler em italiano lendo as Domenica Del Corriere em seu colo, aprendi a respeitar os que vieram antes, aprendi a ser honesto comigo mesmo, a trabalhar muito e com prazer, a encarar a vida com bom humor, mas acima de tudo recebi dela um carinho especial, olhares especiais, sorrisos de canto de boca e a sua mão na minha pra atravessar ruas, febres, medos e situações difíceis para uma criança. Era uma mão suave, grande e calorosa, com rugas, manchas e dores, duas alianças no dedo anular esquerdo e as marcas de uma vida toda dedicada a confeccionar malhas. Aprendi então como era dar e receber afeto. Em domingos especiais nos juntávamos em familia para fazer raviolis. O passo a passo do recheio era supervisionado por ela. Até bem velhinha, quando não tinha mais forças para fazer ela esticava o olho pra acompanhar minha mãe na mistura secreta dos ingredientes. Vocês não vão acreditar mas vinham amigos de muito longe para comer esses raviolis. Chegávamos a fazer 600, 700 unidades numa manhã dessas, eu sei porque os arrumava sobre uma toalha, na sala de jantar, em quadrados perfeitos onde podíamos contá-los apenas multiplicando as filas horizontais e verticais. O perfume era indescritível e só de escrever eu posso senti-lo aqui comigo. O ambiente era maravilhoso, muitas vezes pessoas que não eram da nossa família, amigos e conhecidos, estavam ali e ajudavam...tal era o vínculo que sentíamos que em cinco minutos a pessoa estava incluída como se tivesse feito isso a vida toda. Sentar para comer essa massa era um rito. Mais velhos nas pontas, crianças servidas por último sempre, nós sabíamos esperar, não tínhamos pressa (e eu também sabia que os raviolis com mais molho estavam no fundo). Era sempre muita gente e muito barulho. Eram sempre elogios seguidos a cada garfada, mas todos aguardávamos o veredito da nonna...e sempre, depois de experimentar ouvíamos o seu "è buono!" e nos sentíamos todos felizes, porque afinal o rito confirmava a tradição, o buono era dos bisavós e tataravós que lá onde estivessem sorriam e seguiam seu caminho. Os protestos dos meus pais não eram suficientes para evitar que ela me servisse dois dedos do tinto depois do teste. O teste era o seguinte: vinhos nacionais e vinhos ruins (naquele tempo os nacionais eram todos ruins) deixavam as faces da nonna marcadas em vermelho, os italianos nunca, e se era bom então eu recebia meus dois dedos, às vezes com mais dois dedos de água fresca. Lascialo bevere, ela dizia, e me sorria um sorriso parecido com esse aí da foto. Éramos cúmplices afinal. Um dia eu conto pra vocês das pastiera di grano que fazíamos na Páscoa. Quase o mesmo processo de produção mas com aromas e ingredientes diferentes. Eu penso muito nessas passagens da minha infância. Considero-me privilegiado de ter convivido com a minha nonna, de ter aprendido até onde podem ir a união e o amor entre duas pessoas. Quando minha mulher e eu perdemos um filho ainda bebê e sentei-me ao seu lado, chegando do enterro, não precisei dizer nada. Ela viu em mim a tristeza infinita da perda e me disse, pegando minha mão: porque não fui no lugar dele? Ela não disse isso de forma trágica, mas de forma prática. Para minha nonna era o que devia ter acontecido, e ela me dizia assim simplesmente que estaria pronta a fazer isso por mim. E sua mão na minha mais uma vez me ajudou a seguir em frente. Esticamos o pescoço, mãos juntas no colo, e com olhar determinado e bom humor seguimos ainda por muitos domingos felizes. Do nosso jeito.
Escrito por Bera às 12h39 AM
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