Uma Semana Em Grupo e os Louros da Vitória

Atualmente a coisa que mais me realiza é construir uma conversa profunda com alguém que tope falar francamente sobre si mesmo, sobre mim ou sobre qualquer assunto, que saiba discordar com a mesma naturalidade que concorda, que se surpreenda comigo e me surpreenda com suas palavras e ações; por isso tenho buscado a convivência com pessoas que se juntam com alguma finalidade: uma tarefa, aprendizagem ou apenas divertimento. Estudei um pouco sobre grupos, por incrível que pareça a teoria sobre eles é bem pequena e algumas vezes mais filosófica que prática. Alguns pensadores alertam para os perigos do grupo, como Jung, por exemplo, que temia que grupos pudessem representar uma massificação (se bem que pra ele até o Eu poderia ser massificado - taí um tema para uma boa conversa), uma perda da identidade enquanto outros, como Kurt Lewin, escreveram e pensaram toda uma teoria sobre os benefícios de um grupo seja ele familiar ou dedicado a uma produção.
Mas não é da teoria que eu queria falar aqui. É da prática e da experiência vivida em sala nesta semana que passou. Um treinamento acontece no meio das pessoas e elas é que vão dar o tom e a profundidade da experiência, e a melhor coisa que pode acontecer é o grupo sentir, logo de cara, que é o momento, que há confiança mútua para um mergulho profundo no auto conhecimento. Como isso acontece, e por que, é muito difícil de saber e aqui estou mais interessado em escrever sobre as sensações de estar no meio de um grupo em ação, andando pela extensa rede de relações de afeto e distanciamento criada por ele, frágil e provisória, construída para amparar eventuais quedas e também para limitar o enorme absurdo presente no inconsciente multiplicado de 26 pessoas. Vou falar do que aconteceu...imaginem que cada pessoa dessas 26 teve seu tempo e momento de protagonista, de personagem principal, cada uma delas recitou seu papel e esse texto falava da realidade da sua própria experiência de vida, um mantra familiar, a história de cada um representava a história de todos nós. Em certos momentos deixávamos de ser um grupo para ser um, unidos por um sentimento de compaixão, às vezes de alegria, raiva, preconceito, aceitação, surpresa...uma árvore imensa que, ao invés de um fruto dava vários, de cores e sabores diferentes. Recitávamos o mesmo mito pessoal que tinha em comum o mesmo tema, a mesma origem humana. Quando isso aconteceu as pessoas entraram em contato com uma consciência despertadora que a princípio produziu um assombro, uma interiorização, mas que depois, ao se manterem o valor e a grandiosidade da tarefa proposta por cada uma delas a si mesmas [e seu sentido pessoal] levou à uma ação corretora, a uma aprendizagem sobre si, a uma ligação com o eu ideal que todo o grupo percebeu, e mais, comentou e debateu. Nessa reunião que descrevo estavam pessoas de idades e profissões variadas, mas uma pergunta se mantinha constante para cada um...por que e para que devo esforçar-me, persistir em uma atividade ou objetivo? A capacidade de responder a essa pergunta se chama responsabilidade. Cada uma dessas pessoas respondeu individualmente às perguntas que a vida lhes faz diariamente, cada uma delas evitou o vazio existencial, a percepção ingênua de que querer é poder, a idéia aterrorizante de que tudo pode ser possível, ao contrário, elas trabalharam duramente com seus limites pessoais, pacientemente buscando alargá-los, para seu benefício e o das pessoas que as acompanham. Finalmente, dois dias depois, nos reunimos para relaxar, conversar e comer juntos, em torno de uma mesa que podia muito bem representar a comunhão de aprendizagem que vivenciamos nos dias anteriores. Esse momento me fez sentir mais uma vez que a aprendizagem só acontece se houver amor entre as pessoas, entendendo amor como a exclusão [temporária em nosso caso] de toda a tendência de ódio ou vingança, de pagar o mal com o mal, de julgar sem ouvir, de separar sem conhecer. Essa refeição me fez sentir o jeito especial com que nos relacionávamos agora, fora da sala de aula, como conversávamos abertamente, como alguns já me falavam de sentimentos bons e ruins que neles despertei, a forma como ríamos de nós mesmos de forma natural e a vontade que tínhamos de permanecer juntos, porque esse amor, sabíamos muito bem, é muito raro de se encontrar em outros grupos. Ao deixá-los para retornar à minha casa, uma das pessoas desse grupo, a que nos recebia e nos ensinava a verdadeira hospitalidade, me acompanhou até a saída e, de passagem, arrancou um ramo com folhas de um imenso loureiro de mais de 4 metros que vive no jardim da casa centenária que abriga seu restaurante. Ao despedir-se ele me entregou esse ramo de folhas de louro. Pensei na hora o que podia representar esse ato tão simples e tão carregado de significado? O louro na Grécia antiga era o símbolo da vitória, consagrado pelo deus Apolo. Atletas e generais recebiam essa planta quando eram vitoriosos. E nós? Não suportamos juntos a dor do auto-conhecimento? Não nos superamos como nunca antes pensamos ser possível e não nos maravilhamos com isso? Não vencemos uma grande batalha nesses dias que passamos juntos? Uma vitória merecida, pensei enquanto atravessava a Angélica, de um grupo capaz de lutar junto para que cada um entendesse a si próprio. Ah! E se você desejar conhecer a verdadeira hospitalidade ou o loureiro centenário...Salommão Bar, Av. Angélica 2435, Daniel.
Escrito por Bera às 05h19 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|