impressões de ontem


Uma Sexta

Uma sexta-feira estranhamente feliz, você já teve?

Tudo começa com uma ida ao dentista para aquele monólogo sem fim, mas eis que uma aplicação de laser (avô do faser usado pelo Capitão Kirk contra os Klingons) provavelmente regulado para clarear ao invés de atordoar me devolve a brancura esquecida do meu sorriso. 

Logo após, no metrô, embarca uma família de muito longe. Percebia-se pelos olhares assustados, porque ameaçavam cair a cada freada ou arrancada da composição e pelo cheiro bom de planta desconhecida que saía deles. Conseguem sentar no banco do fundo e colocam o garoto mais novo, uns sete, na janela. O menino olha assustado para o concreto que escorre  rápido e horizontal e ainda se surpreende quando o pai, com ares de experiência, lhe diz que daqui a pouco vai ser bonito quando o trem sair da terra. Não passa nem um minuto e o garoto chama baixinho: pai, pai...o velho olha para o filho, numa disponibilidade doce e o moleque dispara: “quem dirige”? Não pude deixar de rir surpreso da exatidão e sabedoria da pergunta, meu novíssimo sorriso branco junto com o sorriso do pai, infelizmente com poucos dentes, mas muito mais orgulhoso, preciso e importante que o meu.

Ainda nessa tarde uma amiga me carrega através do trânsito lento e ruas encharcadas porque acredita que tenho experiência suficiente para ajudar um empresário em dificuldades. Chegamos. Seiscentos metros quadrados de objetos antigos. Muita poeira e falta de espaço. Gravadores Aiko, Kodaks Instamatic, despertadores Westclox, estatuetas do Getúlio Vargas e sopeiras dividem espaço com uma infinidade de móveis, quadros, milhares de chaves, discos de vinil da Leny Eversong e livros antigos. 

O empresário me conta a história inacreditável de como um trauma pessoal provocou a formação desse enorme acervo, das enormes oportunidades escondidas em cada pilha de objetos. Contraponho a necessidade de fazer um caixa para as despesas. Ele ataca dizendo do LP do Roberto Carlos – o primeiro gravado – que ele vendeu por cinco mil para um colecionador, me esquivo e contra ataco dizendo que lucros em potencial não pagam contas, ele sente o golpe, mas me diz que a caravela de Duratex com velas com o distintivo do Palmeiras que lhe custou cinco reais deve ter pagado a janta da viúva de noventa anos que a vendeu, junto com os discos do Orlando Silva. Rendo-me aos seus motivos que talvez sejam, também, uma razão de vida, uma missão, não sei. Rimos juntos da fogueira que a caravela iria render e ele e eu percebemos que não lutávamos mais. Que eu havia entendido e aceitado seus argumentos e que ele entendia e aceitava que alguma dose de realidade seria necessária. Passamos a admirar a luz das aquarelas e a elegância de um LP do Humberto Teixeira, marmorizado em preto e branco, do tempo que discos, além de música traziam textos e gravuras em capas que demoravam horas para serem exploradas. 

Tenho o hábito de me perguntar, ao fim de um dia, sobre o significado de certos acontecimentos, de querer ouvi-los mais de perto, pois tenho a impressão que alguns querem me dizer coisas e nessa sexta nem tive que pensar muito para que o dia todo fizesse sentido. 

Entendi que um sorriso branco é ótimo, que me fazia falta um bom sorriso e que  até sorrir sem dentes pode ser muito bom  quando é espontâneo, valoriza e valida a quem se ama, um filho no qual depositamos a esperança de um futuro melhor. Isso me fez recordar que também eu fui uma criança famosa por suas perguntas desconcertantes e respostas inesperadas. Cheguei a dizer de que material eram feitas as unhas antes mesmo de aprender a cortá-las, e a ter grupos de familiares ao meu redor para ouvir minhas tiradas. 

A revelação do dia, acreditem, é que percebi que fiz dessa habilidade minha profissão. Vivo ainda hoje de buscar perguntas corretas e de construir algumas respostas, que mesmo erradas devem divertir e fazer pensar, e foi por essa habilidade infantil que me buscou minha amiga na tarde chuvosa. O que ela não sabia é que me levou pra dentro de mim mesmo. Aquele galpão e as perguntas que eu fiz eram espelho e eco. Também eu não juntei tantas habilidades e experiências? Não sentei altivamente sobre elas e me orgulhei da fortuna que representavam? Já não vendi sentimentos de imenso valor por centavos e já não aceitei calado tantas coisas que não precisava apenas por não poder negar? Quando desmontarei as pilhas de habilidades guardadas? Quando darei a elas seu exato valor? Quando as pessoas pagarão por elas, satisfeitas? 

Interessante sexta-feira essa. Tão vital em seus propósitos, tão objetiva, clara e caprichosa em seus detalhes.



Escrito por Bera às 02h20 PM
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