O Certo e o Errado
Imagine que numa roda de amigos você decida debater valores pessoais, caráter ou ética. Para alguns você estará, por alguma razão, querendo estragar o ambiente; outros vão achar que você acordou com o pé esquerdo, que está chatinho, e provavelmente vão começar a levantar e deixar na mesa a grana referente aos chopps que tomaram com a desculpa de algum trabalho ou compromisso a atender. Isso acontece, talvez, porque valores, caráter e ética são assuntos pouco debatidos na família, na escola ou no trabalho (quem lembra das aulas de filosofia que tínhamos no ginásio?). Por serem pouco debatidos são pouco compreendidos e no fim fica parecendo que valores, caráter e ética são uma questão de opinião e obviamente cada um tem direito a sua própria opinião, e se cada um defender sua opinião (sem ser sobre futebol)...o chopp estraga, afinal essas coisas são "relativas", já ouviram essa? Acontece que essas coisas não são apenas uma questão de opinião pessoal e não são...relativas. Uma amiga definiu ética (e poderíamos incluir valores e caráter) "como aquilo que sabemos desde os confins da humanidade e que por motivos torpes declinamos". Minha mãe, que tem o talento de simplificar as coisas me ensinou, há muito tempo, algo importantíssimo. Eu tinha participado de uma vaia coletiva a um professor, uma coisa estúpida daquelas que valiam um bilhete pra casa e ao ser questionado sobre meu comportamento eu simplesmente disse que todos tinham feito a mesma coisa e foi aí que ela me disse a seguinte frase: "mesmo que todos estejam fazendo errado, o certo permanece certo". Com isso ela também estava dizendo, diretamente, que eu já sabia qual era o certo e que tinha condições para fazer a escolha correta. Não era uma questão de opinião e nem de maioria. Vaiar o professor era errado porque era falta de respeito e consideração e ainda me tirava a oportunidade de discordar de seus métodos e debatê-los para tentar ter uma aula mais agradável. A partir dessa frase sempre me responsabilizei pelas coisas certas e erradas que fiz. Passei a prestar muita atenção ao momento da escolha. Nem sempre acertei, mas nunca mais dei desculpas esfarrapadas para mim ou para os outros, e sempre soube quem é o responsável pela maior parte das coisas que me acontecem, aconteceram e acontecerão: eu mesmo.
Escrevi tudo isso até aqui porque nesta semana reli um livro que comprei em 1982. Caiu literalmente na minha mão quando resolvi fazer uma limpeza na estante e separar os livros que vão ficar dos que vão ser doados, vendidos ou trocados. Olhei pra capa do pequeno volume amarelado e senti uma emoção antiga, lembrei da história e resolvi reler. A Comédia Humana de William Saroyan, edição de 1966, o volume 60 da Biblioteca Universal Popular (sim, havia uma coleção popular em 1966, volumes baratos e bem traduzidos).
Reler livros é uma coisa que valeria escrever umas duzentas linhas aqui, talvez eu faça isso um dia. As vezes é até melhor que ler, juro. Se você já releu sabe disso. E esta releitura em particular foi um grande momento de emoção e reflexão, porque é um livro que toca em coisas fundamentais. Da dedicatória que Saroyan faz ao pai (que pouco conheceu) até a última linha não há nada desnecessário, cada página poderia ser lida sozinha e teria significado. Os personagens carregam as características primárias que nos fazem humanos, os diálogos são simples, tocantes, deixam que a emoção diga mais do que as palavras. Você se sente lá, junto, sente que teria coisas a dizer em determinados momentos, a história envolve e transporta. Homero Macauley (um exemplo de consciência de si), Sr. Spangler, Mr. Grogan, são personagens que vão conviver comigo para sempre, me darão conselhos, ajudarão nas minhas escolhas e rirão comigo da minha comédia pessoal.

Há outro livro que é irmão gêmeo deste embora escrito depois (1960) e por uma escritora. É O Sol é Para Todos, da Harper Lee. Também um livro sobre a formação do caráter, sobre como aprendemos a escolher o certo e o errado e a distinguí-los um do outro. Acho que por ter lido muito e sempre, e talvez por ter passado dos cinquenta, acabei desenvolvendo o hábito de ficar fazendo ligações entre livros, personagens, locais, essas coisas. Então na minha cabeça o Homero Macauley, da Comédia Humana, estaria sentado na calçada e conversando com o Gem e a sua irmã Scout de O Sol é Para Todos. Ambos viviam tempos de crise (como a nossa), e falariam de suas indecisões, medos, conflitos e expectativas. Seria uma grande conversa.
Essas crianças quase adolescentes tinham também outra coisa em comum nos dois livros, nas duas histórias: Pais e adultos com os quais conviviam tinham caráter e ensinavam a eles valores fundamentais, mais do que isso, esses adultos agiam de acordo com seus valores e caráter. Adultos formadores de adultos. Aliás, os dois livros iriam poupar 50.000 conselhos chatos se você, que tem um filho adolescente, conseguisse convencê-lo a ler os dois. Atticus Finch, pai da Scout e do Gem compreenderia o Sr. Spangler, de a Comédia no primeiro aperto de mão, após o primeiro olhar. São ambos de um caráter único, puro, dispostos a pagar o preço de viver por seus valores pessoais e também a aceitar e conviver com aqueles que pensam e agem de forma diferente. Certo ou errado.
Não sei não, mas acho que talvez fosse melhor ainda que pais e adultos lessem ambos antes de convencer seus filhos a lerem também. Pra refrescar essa capacidade de diferenciar o certo do errado, sabe como é, as vezes a gente esquece. Trecho de A Comédia Humana: "...Estou lhe dizendo isto: seja grato a si próprio. Seja agradecido. Compreenda que o homem é, é alguma coisa que ele pode agradecer e deve agradecer, porque se é bom sua bondade não é só dele, é minha também, e de qualquer outro. É dele apenas para que ele a proteja e para que a espalhe em redor para mim e para todos os outros do mundo. O que você tem é bom; portanto seja agradecido por isso. Será bem recebido por todos que você conhecer, mais cedo ou mais tarde. Eles saberão quem você é logo que o virem. -Eles saberão que você não os trairá e não os magoará. Saberão que você não os desprezará mesmo que todo o mundo os tenha desprezado. Saberão que você verá neles o que o mundo não viu. Você deve saber tudo isso. Você é um grande homem com quatorze anos de idade. Quem o fez grande, ninguém sabe, mas, como é verdade, saiba que é verdade, seja humilde diante disso, e o proteja. Compreende?...."
PS: Você encontra os dois livros, usados, baratinhos no www.estantevirtual.com.br. Não ganho nada colocando aqui esse endereço, mas é que economizar é uma dessas coisas certas que perderam muito da sua importância e significado.
Escrito por Bera às 04h46 AM
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