Estive com um grupo de amigos ontem. Juntos cultivamos a aspiração de fazer o bem e decidimos estudar filosofia, como caminho, talvez.
Conversamos ontem sobre a finitude das coisas e da vida, o desejo do eterno, nossa relação com a morte. Havia amigos que nunca pensaram sobre esse momento, sobre esse segundo em que deixarão de existir aqui neste mundo; havia outros que viam a certeza da morte como algo que deveria servir para que vivêssemos melhor, nos cuidássemos mais. Também havia os que permaneceram mais calados.
Trabalhei muitos anos em hospitais e vi muitas pessoas morrerem. Mortes espasmódicas e violentas e mortes tranquilas entre sorrisos e despedidas. Eu era jovem e o que primeiramente me chamou a atenção foi a diferença que há entre o corpo vivo e o corpo morto no exato momento que a morte acontece. Aprendi depois que o corpo necessita de algumas horas para morrer, mas havia um momento exato em que alguma coisa ocorria e todos que estavam ali, médicos e enfermeiras, percebiam. Um expirar, uma ausência, um silêncio. O momento em que ,diz o mito, ficamos 21 gramas mais leves. Isso me impressionou.
Também vi pessoas esperarem por entes queridos por dias e dias, para só depois morrerem. Numa outra vez, conversei durante semanas com uma pessoa em estado terminal que recusava os analgésicos que poderiam diminuir a dor e quem sabe até seu tempo de sofrimento. Demorei muito para entender que para ele tudo aquilo deveria ser vivido integralmente, sem reduções ou atalhos. Na sua crença outros períodos de vida viriam, livres desses pesares de agora. Encarava o fim com força e dignidade.
A morte [e os mistérios que a cercam] é um dos motivos da existência do pensamento filosófico. O deixar de ser e estar provoca perguntas, reações, reflexão. O ato de nascer, que sempre achei muito mais misterioso do que o ato de morrer provoca menos questionamentos, poucos se espantam com o fato de, sem motivo algum, alguém começar a respirar, chorar, sentir, pensar. Mas as dúvidas que ambos geram [de onde viemos e para onde vamos?] são a razão da filosofia.
Existencialistas como Sartre achavam absurdo estarmos vivos e também absurdo o fato de morrermos, com o que concordo, já os gregos antigos percebiam a morte como o ápice de uma vida bem vivida. Filosofavam para preparar-se. Eutanásia queria dizer a boa morte, a morte daquele que viveu plenamente, que se preparou.
Como vivemos o presente, eu e meus amigos, falamos da morte hoje, da angústia que ela gera, do prazo, da data que não sabemos. Falamos de pessoas que mudam suas vidas ao saber que têm um tempo limitado de vida. Lembrei de um filme antigo, o Sétimo Selo, em que o personagem, um cavaleiro cruzado, joga xadrez com a morte, uma metáfora da vida que vivemos quando não levamos em conta que somos finitos. Ao se recusar a aceitá-la no momento previsto o cavaleiro ganha um tempo, um tempo que é consumido sem felicidade alguma. Aos meus amigos esqueci de dizer - mas digo agora - que a nossa conversa, acompanhada de vinho, calor humano, hospitalidade e pratos familiares, nos fizeram viver duas horas de vida plena. Acho que a angústia exagerada em relação à morte tem a ver também com o individualismo e a solidão. Num círculo de amigos nos sentimos mais reconciliados, "de bem" com a vida e, por que não? De bem com a morte.
Como gosto muito do Jorge Luiz Borges, postei esse vídeo bem curtinho de uma entrevista dele nos anos 80. Ele desconcerta o entrevistador [que diz desejar vê-lo daqui há cinco anos] ao dizer que tinha sonhado que morrera e que o sonho lhe trouxera um sentimento de felicidade e alívio. Sim, porque era um sonho, diz o entrevistador. No, no ,no! Me senti realmente feliz, aliviado, livre. O entrevistador muda rapidamente de assunto e fala em legado, em testamento, mostra bem como o assunto nos é desagradável e inoportuno. Borges se recusa a comentar, pede que esqueçam Borges e que leiam outros autores, mais importantes do que ele. Como qualquer pessoa sensível ele sabia que não estava aqui para deixar legados e conselhos, mas para caminhar para conhecer-se e deixar exposto seu caminho que também poderia ser chamado de sua obra [imortal]. Havia muito tempo que Borges se preparava para morrer.
Postei porque o sonho de Borges é também o meu sonho.