impressões de ontem


Um Ato de Bravura

 

Foto retirada do blog http://www.novoslabirintos.blogger.com.br/

 Ontem ao descer por uma das passarelas do metrô - usei a passarela apenas porque a escada rolante estava parada - quase no fim dei com uma menina, uns 16 anos, com os braços erquidos com toda força, segurando um caderno aberto e dobrado onde se lia, escrito com várias passadas de bic vermelha : "ABRAÇOS GRÁTIS".

As pessoas passavam apressadas, alguns olhavam apenas, eu juro que ia passar também, mas olhei bem pra ela, não com interesse, mas com admiração e ela "vai um abraço"? Respondi VAI! com um volume de voz e um tanto de decisão que me deixaram impressionado e assim aconteceu o abraço e enquanto nos abraçávamos ela disse um "aeeee" de alegria pura, equilibrando-se na ponta dos pés. A única coisa que eu consegui dizer, em troca, foi um obrigado tímido e meio gasto, saído do silêncio com muita dificuldade.

Foi um abraço rápido, com cerimônias, sem muito calor ou proximidade, sem conjecturas e sem futuro, sem necessidade. Ao contrário dos abraços solidários não desejava nada; diferente dos abraços de reencontro e despedida não tinha sentimentos exagerados; não trazia o sobressalto ou a força de um abraço de comemoração, de gol de placa; não vinha com a necessidade do beijo de um abraço de amor; não tinha esperanças de se repetir; não unia, não dividia.

Foi um abraço fresco, novo em folha como um alface brotando no sereno da manhã; vinha de alguém que sorria, alegrava-se e ansiava por um contato imediato de qualquer grau. Alguém que resolveu que se sentiria feliz abraçando grátis, um ato de bravura, dira eu, quase como decidir salvar alguém num mar agitado.

A menina seguiu, com seu colega ao lado, caderno erguido que a missão continuava e também segui eu, alma mais leve, dia mais claro, as mãos no bolso mais quentes de um calor de dentro que aliviava o vento frio que soprava distraído.

Sei que é um movimento mundial esse do abraço grátis, parece que iniciado por uma monja indiana que abraça multidões provocando catarses imensas, tudo bem, mas a Ordem do Mérito do Abraço vai pra menina da passarela do Metrô, por demonstrar bravura no campo de batalha da nossa cidade, por viver acima do mero cumprimento do dever e sobretudo por aquecer a minha manhã de inverno de forma sustentável, sem eletricidade, apenas com a energia de seu amor incondicional.

 



Escrito por Bera às 01h00 AM
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