Muito afim

"A amizade requer aquele raro ponto médio entre semelhança e diferença", escreveu o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson.
Adorei a frase, mas quando pensava sobre a amizade recebi uma outra, da amiga Márcia:
"Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto onde foi interrompido. Afinidade é não haver tempo medindo a vida".
Arthur da Távola
E aí minha atenção se desviou para as palavras semelhança e afinidade. Uma sensação de mistério. Sim, porque amizade é uma coisa plantada, tratada e regada, logo se saberá se viceja ou perece, é natural, floresce e frutifica ou fica apenas caule, meio seco mas esperado.
Já a afinidade carrega consigo um quê de mistério. Não tem porque acontecer, é ilógica, randômica e inesperada. Não é fruto de plantio ou da vontade, e se não se dá vida a ela, assim também parece impossível que morra.
Gosto do sentimento da afinidade porque nele cada um pode ser o que realmente é. Como sentir afinidade se eu finjo? Os fingidores jamais poderão sentir a verdadeira afinidade, a mentira encontra parceiros, mas não afins. A afinidade também preserva a liberdade, podemos senti-la e continuar sendo diferentes.
A afinidade é independente como diz a frase porque não precisa do amor, da simpatia, existe mesmo na raiva, no desconforto e no ódio. Aliás faz tempo que as afinidades mal compreendidas levam ao ódio e à diferença. Sou estranho ao que me é semelhante ou muito sabido, sou estranho e desconhecido de mim mesmo em alguns momentos e aí me armo contra o que é igual.
Para encontrar afins você precisa conhecer seus gestos, sua preguiça, seu mau gosto e suas preciosidades. Precisa ter uma marca pessoal, por isso eu desconfio que afinidade pra valer seja mais presente em pessoas maduras. É lógico que eu estou chutando, mas a afinidade entre jovens vem sempre acompanhada de um corte de cabelo, uma roupa, um som da moda, enquanto na idade mais madura pode vir de uma lembrança, de uma pétala seca entre as páginas de um poema, um violino distante, um rosto, um erro, um suspiro.
Até no que é ruim a afinidade aparece. Nas piores músicas, nas alergias, nas derrotas, na solidão, na distância e nos veios caprichosos do mármore de uma lápide ou da mesa de um bar.
Dá pra sentir afinidade por quem nunca se viu ou se conheceu, e assim retomar conversas como se nunca tivessem sido interrompidas, surpreender-se a cada uma delas como se tivéssemos um parente distante que nos ocultaram por décadas, um terço interminável de semelhanças misteriosas.
Anos atrás eu dizia "estar a fim" de alguém ou de alguma coisa quando queria muito alguém ou algo. Desconfio que queria mesmo dizer "estar afim" pra externar o sentimento de pertencer, querer fundir-se com, juntar as metades rasgadas, porque no fundo mesmo, quando isso acontece me sinto mais humano, mais real, mais parte de um todo maior, sem tempo, sem bolor e sem sobrenomes.
Escrito por Bera às 05h36 AM
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