impressões de ontem


Abre as Asas Sobre Nós

Quando eu era pequeno havia uma propaganda com uma música muito bem feita, acho que pelo Zé Rodrix, que dizia "liberdade é uma calça velha azul e desbotada", e era comum ouvirem-se ironias a essa letra porque naquela época havia uma ditadura e a liberdade era um artigo de luxo para todos nós.

Alguns podem achar reducionista a frase do Zé, eu não achava e não acho. Sei que ele queria liberdade tanto quanto eu e se alguém a reduziu não foi ele, com certeza. Além do mais, quem da minha geração não sonhou com uma calça Lee? Pra mim ela representou o fim dos vincos, das benditas calças marrons que minha mãe comprava, das barras e dos cintos combinando...o fim dos cabelos curtos e o começo da vida de adulto. Não fosse o jeans eu talvez eu tivesse hoje vinte anos a mais.

Bom, mas eu estou me distanciando do que queria comentar.

Há alguns dias atrás estava numa sala coordenando o trabalho de um grupo de pessoas que discutiam e aplicavam técnicas do empreendedorismo em seus negócios num sistema de sub-grupos e colaboração mútua. Um deles apresentou um trabalho muito bem sucedido de uma grande mudança pessoal para resultados mais expressivos. O envolvimento do grupo, do proprietário da empresa, dos funcionários e clientes nos deixaram espantados e felizes.

Foi quase no final que alguém perguntou a esse empresário qual teria sido o maior benefício de todo o trabalho (foram quase 9 meses) e ele disse literalmente o seguinte: "Liberdade. Isso foi o que eu mais ganhei. Antes eu achava que o grupo de colaboradores eram um bando de pessoas que trabalhavam pra mim e via o cliente como alguém que pagaria minhas contas e meus luxos. Hoje entendo diferente. As pessoas dentro do meu negócio têm a minha confiança. Posso sair e deixa-las fazer seu trabalho. Todas querem agradar o cliente e fazer o melhor que podem. Hoje conversamos e decidimos juntos. Vejo o cliente hoje como a razão de ser da empresa. Faço tudo por ele e a equipe me ensinou isso. Eu me sinto mais livre e com mais tempo para família e amigos".

Imaginem o efeito que essa fala provocou no grupo. A emoção e o aplauso vieram porque acredito que a maioria ali presente ansiava por uma liberdade assim. Por que empreender deve ser sinônimo de sofrimento e perda? Por que tocar um negócio deve estar ligado a sentimentos de aprisionamento, de conflito com funcionários que só pensam em levar o deles e com clientes que sempre querem levar vantagem? Não seria tempo de quebrarmos esses paradigmas?

Gostaria de citar Viktor Frankl, um psicólogo austríaco que escreveu: "A liberdade para os seres humanos não é uma liberdade "de", mas uma liberdade "diante de". Não é uma liberdade de estado, mas uma liberdade de escolha. Diante dos condicionamentos e limites, fatos e circunstâncias, o ser humano é livre "para".

Quando eu era criança aprendíamos e cantavamos os hinos brasileiros. Sim, são vários. O nacional, o da república, o do expedicionário, o da marinha, etc. Aprendi e cantei todos e sempre tive um predileto: O da República, que por ter letra do Olavo Bilac também tem palavras que são do século passado, como labéus e porvir, que cantávamos automaticamente, mas tem um refrão que eu nunca esqueci:

Liberdade! liberdade! /Abre as asas sobre nós! / Das lutas, na tempestade/ Dá que ouçamos tua voz!

Hoje sinto que liberdade talvez seja treinar e me esforçar para ouvir essa voz, em meio à confusão interna e externa do cotidiano e de meus diálogos internos. Ouvir e seguir essa voz, seguir essa intuição, essa consciência-radar, esse espírito - não sei que nome seria mais adequado - seguir de forma espontânea esse algo que me ajuda dar melhores respostas e a fazer melhores escolhas diante das perguntas da vida; que me leva a dar mais sentido e felicidade ao fato de existir.

Desse esforço e treino me percebo tendo alguns lampejos de liberdade. Nesses momentos respondo sem pensar, meu coração fala, alterno entre emoção e clareza, faço comparações improváveis e surpreendentemente fundamentadas, não há tristeza, apenas um sentimento de estar, bem-estar.



Escrito por Bera às 01h41 AM
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