impressões de ontem


Por quem os joelhos dobram



Raramente concordo tanto com um texto. Tanto que resolvi publicar aqui. Também porque ando meio cansado e sem inspiração, mas o autor faz a gente refletir muito sobre valores como a persistência (e os motivos que nos levam a persistir), sobre a desgraça que é passarmos a vida inteira querendo aprovação dos outros (e agindo de forma a recebê-la), quando seríamos bem mais felizes sendo nós mesmos. Seríamos todos bem mais Mastroianni...



Além disso é bem escrito, criativo e bem humorado, coisas que eu gosto e então compartilho com vocês. Taí...e obrigado Xico Sá, espero não ter problemas com este copiarcolar bem intencionado.



XICO SÁ

Ora bolas


AMIGO TORCEDOR , amigo secador, homem que é homem chora em público, aos soluços, seja qual for o motivo, chora pela circunstância e chora pelo conjunto da obra, porque o choro de um homem nunca é um choro isolado, homem chora a dureza represada de ser homem, e triste dos homens que não choram nunca.
Guga e Romário, por exemplo, choraram nesta semana o crepúsculo dos ídolos, a difícil hora de voltar para a vida normal de todos nós. Ronaldo chorou a mesma dor da outra vez, como ele mesmo disse, a dor que por mais que se repita é sempre capaz de surpreender até aquele homem doente, mau e desagradável que habita um subsolo perto da minha casa. Agora chega, amigo, reserva o joelho para dobrar pelas belas mulheres, para fazer uma prece, para, no máximo, bater uma bola no churrasco com o Ronald. Chega de sofrer em público, esquece essa loucura cristã e masoquista de dar a volta por cima.
Vai ser craque na vida, menino, chega de provar para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém, vai para a noite e transforma todos os dias seguintes em dias de Mastroianni, como os belos dias sugeridos pelo Cuenca, não o Deportivo da Libertadores, amigo, mas o João Paulo, escriba decente da aldeia carioca. ""O Dia Mastroianni", como relata o livro homônimo, é aquele gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística.
Ronaldo, amigo Fenômeno, os sádicos já estão lá fora, salivando à espera do seu novo sacrifício, de uma nova via-crúcis, de que abra a mão da vida livre e farta em nome de uma tal superação masoquista.
Pensa bem, amigo, se a meta é se recuperar para as artes ludopédicas, levará pelo menos um ano, e olhe lá, é muito tempo. Se a recuperação é só para a vida e suas delícias, basta tirar os pontos e começar o estrago logo aí mesmo em Paris. Asseguro que terá mais boas festas do que o Ernest Hemingway; garanto que Henry Miller vai se debater no túmulo com a doce inveja das suas mulheres.
Ora bolas, amigo, esquece os gramados, esquece essa torcida chata de Milão, esses doentes por futebol são um saco, nem conseguem enxergar os jogos, consagram e condenam num piscar de olhos. Vem para o Rio, meu rapaz, esquece as famosas e vê quantas belas bundas anônimas e menos trabalhosas. Sim, despede-se no Maraca, num jogo entre amigos, um tempo com a camisa do Flamengo e o outro com a indumentária do divino São Cristóvão, o berço, onde até aquela cabrita magra que pasta na grande área sente saudades dos seus primeiros gols.

O corvo lamenta
Lamentável que a Copa do Brasil, torneio sagrado dos grandes secadores espalhados pelo país, tenha perdido um pouco do seu charme. Como mostrou esta Folha, muitos clubes estão largando seus grotões para jogar nas capitais e até fora de seus Estados. Esse abandono da aldeia, incentivado pelas malditas transmissões da Globo, é criminoso. Meu corvo Edgar estava tão triste anteontem que nem viu os jogos. Preferiu ver o Tarcísio Meira no filme ""Eu", do genial Walther Hugo Khouri, no Canal Brasil.

xico.folha@uol.com.br


Ah!! O Xico também me fez imaginar que o Ronaldinho tenha feito um trato com o diabo, como um Fausto de chuteiras, e em troca da fama, fortuna e de ser o maior artilheiro de copa de todos os tempos teria dado sua alma, mas eis que na hora h se apieda a alma negra do demônio, e olhando para o garoto magro e miserável só consegue levar dele, assinado, os dois joelhos.


Pra saber e ler mais do Xico Sá: www.carapuceiro.zip.net



Escrito por Bera às 10h29 PM
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
    Outros sites
      nuno bianchi
      Drivein
      Tapetes de Penelope
      Caderno de Anotações
      Spoiler
      Gandalf
      Fiteiro
      Primícias Poéticas
      Releituras
      Il Cavoletto di Bruxelles
      Carson McCullers
      Adélia Prado
      Poesia Pablo Neruda
      Poesia Alberto Caeiro
      Poesia Manoel de Barros
      Poesia Mario Quintana
      Nelson Rodrigues
      Ella Fitzgerald
      Slow Food