Minha nonna era exatamente assim. Quando colocaram esse boné em sua cabeça, de surpresa, ela não se irritou, não deu ouvidos às risadas dos amigos e da família. Quando apontei a Petri 35 pra gravar esse momento ela não se envergonhou...pelo visor eu a vi juntando as mãos no colo e esticando a coluna pra uma postura ereta já então difícil de manter. Depois eu vi seus olhos verdes tomarem uma expressão doce e compenetrada e sua boca me presentear esse sorriso de Mona Lisa que dizia mais ou menos...tá...eu aceito a brincadeira, mas do meu jeito. Foi um segundo, pra ser exato foram 1/60avos de segundo e um flash. E ali eu aprendi que dignidade é aceitar as coisas como elas são, mas sempre reservar-se o direito de modificá-las à sua maneira.
Eu passei a infância com essa pessoa. Eu aprendi tantas coisas com ela que mil blogs não seriam suficientes para contar. Ditados inesquecíveis (Uomo e donna in stretto loco, secca paglia appresso al foco) que ela sempre dizia no momento certo, canções perdidas no tempo (Il primo amore non si scorda mai) que ela cantava enquanto batia suas roupas no tanque; aprendi a falar italiano apenas conversando com ela, aprendi a ler em italiano lendo as Domenica Del Corriere em seu colo, aprendi a respeitar os que vieram antes, aprendi a ser honesto comigo mesmo, a trabalhar muito e com prazer, a encarar a vida com bom humor, mas acima de tudo recebi dela um carinho especial, olhares especiais, sorrisos de canto de boca e a sua mão na minha pra atravessar ruas, febres, medos e situações difíceis para uma criança. Era uma mão suave, grande e calorosa, com rugas, manchas e dores, duas alianças no dedo anular esquerdo e as marcas de uma vida toda dedicada a confeccionar malhas. Aprendi então como era dar e receber afeto.
Em domingos especiais nos juntávamos em familia para fazer raviolis. O passo a passo do recheio era supervisionado por ela. Até bem velhinha, quando não tinha mais forças para fazer ela esticava o olho pra acompanhar minha mãe na mistura secreta dos ingredientes. Vocês não vão acreditar mas vinham amigos de muito longe para comer esses raviolis. Chegávamos a fazer 600, 700 unidades numa manhã dessas, eu sei porque os arrumava sobre uma toalha, na sala de jantar, em quadrados perfeitos onde podíamos contá-los apenas multiplicando as filas horizontais e verticais. O perfume era indescritível e só de escrever eu posso senti-lo aqui comigo. O ambiente era maravilhoso, muitas vezes pessoas que não eram da nossa família, amigos e conhecidos, estavam ali e ajudavam...tal era o vínculo que sentíamos que em cinco minutos a pessoa estava incluída como se tivesse feito isso a vida toda.
Sentar para comer essa massa era um rito. Mais velhos nas pontas, crianças servidas por último sempre, nós sabíamos esperar, não tínhamos pressa (e eu também sabia que os raviolis com mais molho estavam no fundo). Era sempre muita gente e muito barulho. Eram sempre elogios seguidos a cada garfada, mas todos aguardávamos o veredito da nonna...e sempre, depois de experimentar ouvíamos o seu "è buono!" e nos sentíamos todos felizes, porque afinal o rito confirmava a tradição, o buono era dos bisavós e tataravós que lá onde estivessem sorriam e seguiam seu caminho.
Os protestos dos meus pais não eram suficientes para evitar que ela me servisse dois dedos do tinto depois do teste. O teste era o seguinte: vinhos nacionais e vinhos ruins (naquele tempo os nacionais eram todos ruins) deixavam as faces da nonna marcadas em vermelho, os italianos nunca, e se era bom então eu recebia meus dois dedos, às vezes com mais dois dedos de água fresca. Lascialo bevere, ela dizia, e me sorria um sorriso parecido com esse aí da foto. Éramos cúmplices afinal.
Um dia eu conto pra vocês das pastiera di grano que fazíamos na Páscoa. Quase o mesmo processo de produção mas com aromas e ingredientes diferentes.
Eu penso muito nessas passagens da minha infância. Considero-me privilegiado de ter convivido com a minha nonna, de ter aprendido até onde podem ir a união e o amor entre duas pessoas. Quando minha mulher e eu perdemos um filho ainda bebê e sentei-me ao seu lado, chegando do enterro, não precisei dizer nada. Ela viu em mim a tristeza infinita da perda e me disse, pegando minha mão: porque não fui no lugar dele? Ela não disse isso de forma trágica, mas de forma prática. Para minha nonna era o que devia ter acontecido, e ela me dizia assim simplesmente que estaria pronta a fazer isso por mim. E sua mão na minha mais uma vez me ajudou a seguir em frente.
Esticamos o pescoço, mãos juntas no colo, e com olhar determinado e bom humor seguimos ainda por muitos domingos felizes. Do nosso jeito.
Durante muitos anos fiz parte de uma equipe brilhante de pessoas que disseminam o empreendedorismo em São Paulo e no Brasil. São pessoas que trabalhavam muito na captação de recursos e pessoas, na logística e na viabilidade econômica, na aplicação e na melhoria de uma das melhores experiências de aprendizagem dentro de uma sala que alguém já pode vivenciar: O seminário Empretec, um workshop, palavra que traduzimos no Brasil para seminário, e que significa 9 dias de experiência prática de aprendizagem pela ação empreendedora e pela comunhão de experiências e conhecimentos do grupo.
Estive em vários estados e cidades aplicando essa vivência, conheci um número enorme de pessoas ligadas a essa experiência, tenho milhares de amigos pelo país e inúmeras e doces lembranças de momentos maravilhosos.
Ainda hoje recebi um email me dizendo que na cidade de Franca se comemoram os 10 anos de aplicação do Empretec. Foi o suficiente para que as memórias viessem à tona, frescas e límpidas: Sapatos, clima gostoso, pamonhas, suco de milho, Barão, basquete, cafezinho do Téo, peixe na telha, isso pra falar de coisas, que não são exatamente do que quero falar.
O que não sai da minha memória são as pessoas.
Dar Empretec em Franca é ter uma outra experiência de grupo. As pessoas, a grande maioria delas, se deixa tocar, se comove, mergulha profundamente no mar de auto conhecimento que o seminário foi desenhado para ser. O profissional que coordena o treinamento em sala não tem muita alternativa senão se deixar tocar e ir junto, e para mim foi assim todas as vezes em que estive na cidade para aplicar o seminário. No final de um deles lembro-me muito bem de ter dito na despedida que eu me sentia encharcado de gente, tamanha foi a interação, a conversa profunda, tantos foram os abraços que trocamos durante a semana.
Outra coisa que me impressiona é a generosidade do povo de Franca. Durante o Empretec todos tocam uma empresa de verdade, com produtos e serviços reais e os instrutores sempre acabam comprando alguma coisa que interessa, pois bem, em Franca ninguém quer receber da equipe. Parece pecado. Não adianta insistir. Já dei até dinheiro pra projeto social de um participante do treinamento como forma de pagar os dois pares de sapato que comprei dele e ele não queria cobrar.
Num seminário em Franca fomos acompanhados em caravana até a saída da estrada, nosso carro seguido por outros de participantes se despedindo, nos bancos do meu carro havia uma abóbora moranga inteira (a maior que já vi), cinco quilos de café em grão, verduras da horta, uma peça de couro (um boi inteiro), e diversos brindes, chocolates, toalhas bordadas, pamonha recheada, tudo presente das pessoas. Dava até dó de ir embora.
É isso que eu queria dizer. Queria dizer obrigado a todos que estiveram comigo dentro de uma sala de Empretec em Franca. Vocês me tornaram um instrutor melhor, mais próximo das pessoas, mais livre para se emocionar, mais capaz de aceitar presentes, afeto e abraços.
Muito obrigado e parabéns a todos que de alguma forma fizeram acontecer cada momento desses dez anos.
Atualmente a coisa que mais me realiza é construir uma conversa profunda com alguém que tope falar francamente sobre si mesmo, sobre mim ou sobre qualquer assunto, que saiba discordar com a mesma naturalidade que concorda, que se surpreenda comigo e me surpreenda com suas palavras e ações; por isso tenho buscado a convivência com pessoas que se juntam com alguma finalidade: uma tarefa, aprendizagem ou apenas divertimento.
Estudei um pouco sobre grupos, por incrível que pareça a teoria sobre eles é bem pequena e algumas vezes mais filosófica que prática. Alguns pensadores alertam para os perigos do grupo, como Jung, por exemplo, que temia que grupos pudessem representar uma massificação (se bem que pra ele até o Eu poderia ser massificado - taí um tema para uma boa conversa), uma perda da identidade enquanto outros, como Kurt Lewin, escreveram e pensaram toda uma teoria sobre os benefícios de um grupo seja ele familiar ou dedicado a uma produção.
Mas não é da teoria que eu queria falar aqui. É da prática e da experiência vivida em sala nesta semana que passou.
Um treinamento acontece no meio das pessoas e elas é que vão dar o tom e a profundidade da experiência, e a melhor coisa que pode acontecer é o grupo sentir, logo de cara, que é o momento, que há confiança mútua para um mergulho profundo no auto conhecimento. Como isso acontece, e por que, é muito difícil de saber e aqui estou mais interessado em escrever sobre as sensações de estar no meio de um grupo em ação, andando pela extensa rede de relações de afeto e distanciamento criada por ele, frágil e provisória, construída para amparar eventuais quedas e também para limitar o enorme absurdo presente no inconsciente multiplicado de 26 pessoas.
Vou falar do que aconteceu...imaginem que cada pessoa dessas 26 teve seu tempo e momento de protagonista, de personagem principal, cada uma delas recitou seu papel e esse texto falava da realidade da sua própria experiência de vida, um mantra familiar, a história de cada um representava a história de todos nós. Em certos momentos deixávamos de ser um grupo para ser um, unidos por um sentimento de compaixão, às vezes de alegria, raiva, preconceito, aceitação, surpresa...uma árvore imensa que, ao invés de um fruto dava vários, de cores e sabores diferentes. Recitávamos o mesmo mito pessoal que tinha em comum o mesmo tema, a mesma origem humana.
Quando isso aconteceu as pessoas entraram em contato com uma consciência despertadora que a princípio produziu um assombro, uma interiorização, mas que depois, ao se manterem o valor e a grandiosidade da tarefa proposta por cada uma delas a si mesmas [e seu sentido pessoal] levou à uma ação corretora, a uma aprendizagem sobre si, a uma ligação com o eu ideal que todo o grupo percebeu, e mais, comentou e debateu.
Nessa reunião que descrevo estavam pessoas de idades e profissões variadas, mas uma pergunta se mantinha constante para cada um...por que e para que devo esforçar-me, persistir em uma atividade ou objetivo? A capacidade de responder a essa pergunta se chama responsabilidade. Cada uma dessas pessoas respondeu individualmente às perguntas que a vida lhes faz diariamente, cada uma delas evitou o vazio existencial, a percepção ingênua de que querer é poder, a idéia aterrorizante de que tudo pode ser possível, ao contrário, elas trabalharam duramente com seus limites pessoais, pacientemente buscando alargá-los, para seu benefício e o das pessoas que as acompanham.
Finalmente, dois dias depois, nos reunimos para relaxar, conversar e comer juntos, em torno de uma mesa que podia muito bem representar a comunhão de aprendizagem que vivenciamos nos dias anteriores. Esse momento me fez sentir mais uma vez que a aprendizagem só acontece se houver amor entre as pessoas, entendendo amor como a exclusão [temporária em nosso caso] de toda a tendência de ódio ou vingança, de pagar o mal com o mal, de julgar sem ouvir, de separar sem conhecer. Essa refeição me fez sentir o jeito especial com que nos relacionávamos agora, fora da sala de aula, como conversávamos abertamente, como alguns já me falavam de sentimentos bons e ruins que neles despertei, a forma como ríamos de nós mesmos de forma natural e a vontade que tínhamos de permanecer juntos, porque esse amor, sabíamos muito bem, é muito raro de se encontrar em outros grupos.
Ao deixá-los para retornar à minha casa, uma das pessoas desse grupo, a que nos recebia e nos ensinava a verdadeira hospitalidade, me acompanhou até a saída e, de passagem, arrancou um ramo com folhas de um imenso loureiro de mais de 4 metros que vive no jardim da casa centenária que abriga seu restaurante. Ao despedir-se ele me entregou esse ramo de folhas de louro.
Pensei na hora o que podia representar esse ato tão simples e tão carregado de significado? O louro na Grécia antiga era o símbolo da vitória, consagrado pelo deus Apolo. Atletas e generais recebiam essa planta quando eram vitoriosos. E nós? Não suportamos juntos a dor do auto-conhecimento? Não nos superamos como nunca antes pensamos ser possível e não nos maravilhamos com isso? Não vencemos uma grande batalha nesses dias que passamos juntos?
Uma vitória merecida, pensei enquanto atravessava a Angélica, de um grupo capaz de lutar junto para que cada um entendesse a si próprio.
Ah! E se você desejar conhecer a verdadeira hospitalidade ou o loureiro centenário...Salommão Bar, Av. Angélica 2435, Daniel.
Uma sexta-feira estranhamente feliz, você já teve?
Tudo começa com uma ida ao dentista para aquele monólogo sem fim, mas eis que uma aplicação de laser (avô do faser usado pelo Capitão Kirk contra os Klingons) provavelmente regulado para clarear ao invés de atordoar me devolve a brancura esquecida do meu sorriso.
Logo após, no metrô, embarca uma família de muito longe. Percebia-se pelos olhares assustados, porque ameaçavam cair a cada freada ou arrancada da composição e pelo cheiro bom de planta desconhecida que saía deles. Conseguem sentar no banco do fundo e colocam o garoto mais novo, uns sete, na janela. O menino olha assustado para o concreto que escorre rápido e horizontal e ainda se surpreende quando o pai, com ares de experiência, lhe diz que daqui a pouco vai ser bonito quando o trem sair da terra. Não passa nem um minuto e o garoto chama baixinho: pai, pai...o velho olha para o filho, numa disponibilidade doce e o moleque dispara: “quem dirige”? Não pude deixar de rir surpreso da exatidão e sabedoria da pergunta, meu novíssimo sorriso branco junto com o sorriso do pai, infelizmente com poucos dentes, mas muito mais orgulhoso, preciso e importante que o meu.
Ainda nessa tarde uma amiga me carrega através do trânsito lento e ruas encharcadas porque acredita que tenho experiência suficiente para ajudar um empresário em dificuldades. Chegamos. Seiscentos metros quadrados de objetos antigos. Muita poeira e falta de espaço. Gravadores Aiko, Kodaks Instamatic, despertadores Westclox, estatuetas do Getúlio Vargas e sopeiras dividem espaço com uma infinidade de móveis, quadros, milhares de chaves, discos de vinil da Leny Eversong e livros antigos.
O empresário me conta a história inacreditável de como um trauma pessoal provocou a formação desse enorme acervo, das enormes oportunidades escondidas em cada pilha de objetos. Contraponho a necessidade de fazer um caixa para as despesas. Ele ataca dizendo do LP do Roberto Carlos – o primeiro gravado – que ele vendeu por cinco mil para um colecionador, me esquivo e contra ataco dizendo que lucros em potencial não pagam contas, ele sente o golpe, mas me diz que a caravela de Duratex com velas com o distintivo do Palmeiras que lhe custou cinco reais deve ter pagado a janta da viúva de noventa anos que a vendeu, junto com os discos do Orlando Silva. Rendo-me aos seus motivos que talvez sejam, também, uma razão de vida, uma missão, não sei. Rimos juntos da fogueira que a caravela iria render e ele e eu percebemos que não lutávamos mais. Que eu havia entendido e aceitado seus argumentos e que ele entendia e aceitava que alguma dose de realidade seria necessária. Passamos a admirar a luz das aquarelas e a elegância de um LP do Humberto Teixeira, marmorizado em preto e branco, do tempo que discos, além de música traziam textos e gravuras em capas que demoravam horas para serem exploradas.
Tenho o hábito de me perguntar, ao fim de um dia, sobre o significado de certos acontecimentos, de querer ouvi-los mais de perto, pois tenho a impressão que alguns querem me dizer coisas e nessa sexta nem tive que pensar muito para que o dia todo fizesse sentido.
Entendi que um sorriso branco é ótimo, que me fazia falta um bom sorriso e que até sorrir sem dentes pode ser muito bom quando é espontâneo, valoriza e valida a quem se ama, um filho no qual depositamos a esperança de um futuro melhor. Isso me fez recordar que também eu fui uma criança famosa por suas perguntas desconcertantes e respostas inesperadas. Cheguei a dizer de que material eram feitas as unhas antes mesmo de aprender a cortá-las, e a ter grupos de familiares ao meu redor para ouvir minhas tiradas.
A revelação do dia, acreditem, é que percebi que fiz dessa habilidade minha profissão. Vivo ainda hoje de buscar perguntas corretas e de construir algumas respostas, que mesmo erradas devem divertir e fazer pensar, e foi por essa habilidade infantil que me buscou minha amiga na tarde chuvosa. O que ela não sabia é que me levou pra dentro de mim mesmo. Aquele galpão e as perguntas que eu fiz eram espelho e eco. Também eu não juntei tantas habilidades e experiências? Não sentei altivamente sobre elas e me orgulhei da fortuna que representavam? Já não vendi sentimentos de imenso valor por centavos e já não aceitei calado tantas coisas que não precisava apenas por não poder negar? Quando desmontarei as pilhas de habilidades guardadas? Quando darei a elas seu exato valor? Quando as pessoas pagarão por elas, satisfeitas?
Interessante sexta-feira essa. Tão vital em seus propósitos, tão objetiva, clara e caprichosa em seus detalhes.
Imagine que numa roda de amigos você decida debater valores pessoais, caráter ou ética. Para alguns você estará, por alguma razão, querendo estragar o ambiente; outros vão achar que você acordou com o pé esquerdo, que está chatinho, e provavelmente vão começar a levantar e deixar na mesa a grana referente aos chopps que tomaram com a desculpa de algum trabalho ou compromisso a atender.
Isso acontece, talvez, porque valores, caráter e ética são assuntos pouco debatidos na família, na escola ou no trabalho (quem lembra das aulas de filosofia que tínhamos no ginásio?). Por serem pouco debatidos são pouco compreendidos e no fim fica parecendo que valores, caráter e ética são uma questão de opinião e obviamente cada um tem direito a sua própria opinião, e se cada um defender sua opinião (sem ser sobre futebol)...o chopp estraga, afinal essas coisas são "relativas", já ouviram essa? Acontece que essas coisas não são apenas uma questão de opinião pessoal e não são...relativas. Uma amiga definiu ética (e poderíamos incluir valores e caráter) "como aquilo que sabemos desde os confins da humanidade e que por motivos torpes declinamos".
Minha mãe, que tem o talento de simplificar as coisas me ensinou, há muito tempo, algo importantíssimo. Eu tinha participado de uma vaia coletiva a um professor, uma coisa estúpida daquelas que valiam um bilhete pra casa e ao ser questionado sobre meu comportamento eu simplesmente disse que todos tinham feito a mesma coisa e foi aí que ela me disse a seguinte frase: "mesmo que todos estejam fazendo errado, o certo permanece certo".
Com isso ela também estava dizendo, diretamente, que eu já sabia qual era o certo e que tinha condições para fazer a escolha correta. Não era uma questão de opinião e nem de maioria. Vaiar o professor era errado porque era falta de respeito e consideração e ainda me tirava a oportunidade de discordar de seus métodos e debatê-los para tentar ter uma aula mais agradável. A partir dessa frase sempre me responsabilizei pelas coisas certas e erradas que fiz. Passei a prestar muita atenção ao momento da escolha. Nem sempre acertei, mas nunca mais dei desculpas esfarrapadas para mim ou para os outros, e sempre soube quem é o responsável pela maior parte das coisas que me acontecem, aconteceram e acontecerão: eu mesmo.
Escrevi tudo isso até aqui porque nesta semana reli um livro que comprei em 1982. Caiu literalmente na minha mão quando resolvi fazer uma limpeza na estante e separar os livros que vão ficar dos que vão ser doados, vendidos ou trocados. Olhei pra capa do pequeno volume amarelado e senti uma emoção antiga, lembrei da história e resolvi reler. A Comédia Humana de William Saroyan, edição de 1966, o volume 60 da Biblioteca Universal Popular (sim, havia uma coleção popular em 1966, volumes baratos e bem traduzidos).
Reler livros é uma coisa que valeria escrever umas duzentas linhas aqui, talvez eu faça isso um dia. As vezes é até melhor que ler, juro. Se você já releu sabe disso. E esta releitura em particular foi um grande momento de emoção e reflexão, porque é um livro que toca em coisas fundamentais. Da dedicatória que Saroyan faz ao pai (que pouco conheceu) até a última linha não há nada desnecessário, cada página poderia ser lida sozinha e teria significado. Os personagens carregam as características primárias que nos fazem humanos, os diálogos são simples, tocantes, deixam que a emoção diga mais do que as palavras. Você se sente lá, junto, sente que teria coisas a dizer em determinados momentos, a história envolve e transporta. Homero Macauley (um exemplo de consciência de si), Sr. Spangler, Mr. Grogan, são personagens que vão conviver comigo para sempre, me darão conselhos, ajudarão nas minhas escolhas e rirão comigo da minha comédia pessoal.
Há outro livro que é irmão gêmeo deste embora escrito depois (1960) e por uma escritora. É O Sol é Para Todos, da Harper Lee. Também um livro sobre a formação do caráter, sobre como aprendemos a escolher o certo e o errado e a distinguí-los um do outro. Acho que por ter lido muito e sempre, e talvez por ter passado dos cinquenta, acabei desenvolvendo o hábito de ficar fazendo ligações entre livros, personagens, locais, essas coisas. Então na minha cabeça o Homero Macauley, da Comédia Humana, estaria sentado na calçada e conversando com o Gem e a sua irmã Scout de O Sol é Para Todos. Ambos viviam tempos de crise (como a nossa), e falariam de suas indecisões, medos, conflitos e expectativas. Seria uma grande conversa.
Essas crianças quase adolescentes tinham também outra coisa em comum nos dois livros, nas duas histórias: Pais e adultos com os quais conviviam tinham caráter e ensinavam a eles valores fundamentais, mais do que isso, esses adultos agiam de acordo com seus valores e caráter. Adultos formadores de adultos. Aliás, os dois livros iriam poupar 50.000 conselhos chatos se você, que tem um filho adolescente, conseguisse convencê-lo a ler os dois. Atticus Finch, pai da Scout e do Gem compreenderia o Sr. Spangler, de a Comédia no primeiro aperto de mão, após o primeiro olhar. São ambos de um caráter único, puro, dispostos a pagar o preço de viver por seus valores pessoais e também a aceitar e conviver com aqueles que pensam e agem de forma diferente. Certo ou errado.
Não sei não, mas acho que talvez fosse melhor ainda que pais e adultos lessem ambos antes de convencer seus filhos a lerem também. Pra refrescar essa capacidade de diferenciar o certo do errado, sabe como é, as vezes a gente esquece.
Trecho de A Comédia Humana:
"...Estou lhe dizendo isto: seja grato a si próprio. Seja agradecido. Compreenda que o homem é, é alguma coisa que ele pode agradecer e deve agradecer, porque se é bom sua bondade não é só dele, é minha também, e de qualquer outro. É dele apenas para que ele a proteja e para que a espalhe em redor para mim e para todos os outros do mundo. O que você tem é bom; portanto seja agradecido por isso. Será bem recebido por todos que você conhecer, mais cedo ou mais tarde. Eles saberão quem você é logo que o virem.
-Eles saberão que você não os trairá e não os magoará. Saberão que você não os desprezará mesmo que todo o mundo os tenha desprezado. Saberão que você verá neles o que o mundo não viu. Você deve saber tudo isso. Você é um grande homem com quatorze anos de idade. Quem o fez grande, ninguém sabe, mas, como é verdade, saiba que é verdade, seja humilde diante disso, e o proteja. Compreende?...."
PS: Você encontra os dois livros, usados, baratinhos no www.estantevirtual.com.br. Não ganho nada colocando aqui esse endereço, mas é que economizar é uma dessas coisas certas que perderam muito da sua importância e significado.
Estive com um grupo de amigos ontem. Juntos cultivamos a aspiração de fazer o bem e decidimos estudar filosofia, como caminho, talvez.
Conversamos ontem sobre a finitude das coisas e da vida, o desejo do eterno, nossa relação com a morte. Havia amigos que nunca pensaram sobre esse momento, sobre esse segundo em que deixarão de existir aqui neste mundo; havia outros que viam a certeza da morte como algo que deveria servir para que vivêssemos melhor, nos cuidássemos mais. Também havia os que permaneceram mais calados.
Trabalhei muitos anos em hospitais e vi muitas pessoas morrerem. Mortes espasmódicas e violentas e mortes tranquilas entre sorrisos e despedidas. Eu era jovem e o que primeiramente me chamou a atenção foi a diferença que há entre o corpo vivo e o corpo morto no exato momento que a morte acontece. Aprendi depois que o corpo necessita de algumas horas para morrer, mas havia um momento exato em que alguma coisa ocorria e todos que estavam ali, médicos e enfermeiras, percebiam. Um expirar, uma ausência, um silêncio. O momento em que ,diz o mito, ficamos 21 gramas mais leves. Isso me impressionou.
Também vi pessoas esperarem por entes queridos por dias e dias, para só depois morrerem. Numa outra vez, conversei durante semanas com uma pessoa em estado terminal que recusava os analgésicos que poderiam diminuir a dor e quem sabe até seu tempo de sofrimento. Demorei muito para entender que para ele tudo aquilo deveria ser vivido integralmente, sem reduções ou atalhos. Na sua crença outros períodos de vida viriam, livres desses pesares de agora. Encarava o fim com força e dignidade.
A morte [e os mistérios que a cercam] é um dos motivos da existência do pensamento filosófico. O deixar de ser e estar provoca perguntas, reações, reflexão. O ato de nascer, que sempre achei muito mais misterioso do que o ato de morrer provoca menos questionamentos, poucos se espantam com o fato de, sem motivo algum, alguém começar a respirar, chorar, sentir, pensar. Mas as dúvidas que ambos geram [de onde viemos e para onde vamos?] são a razão da filosofia.
Existencialistas como Sartre achavam absurdo estarmos vivos e também absurdo o fato de morrermos, com o que concordo, já os gregos antigos percebiam a morte como o ápice de uma vida bem vivida. Filosofavam para preparar-se. Eutanásia queria dizer a boa morte, a morte daquele que viveu plenamente, que se preparou.
Como vivemos o presente, eu e meus amigos, falamos da morte hoje, da angústia que ela gera, do prazo, da data que não sabemos. Falamos de pessoas que mudam suas vidas ao saber que têm um tempo limitado de vida. Lembrei de um filme antigo, o Sétimo Selo, em que o personagem, um cavaleiro cruzado, joga xadrez com a morte, uma metáfora da vida que vivemos quando não levamos em conta que somos finitos. Ao se recusar a aceitá-la no momento previsto o cavaleiro ganha um tempo, um tempo que é consumido sem felicidade alguma. Aos meus amigos esqueci de dizer - mas digo agora - que a nossa conversa, acompanhada de vinho, calor humano, hospitalidade e pratos familiares, nos fizeram viver duas horas de vida plena. Acho que a angústia exagerada em relação à morte tem a ver também com o individualismo e a solidão. Num círculo de amigos nos sentimos mais reconciliados, "de bem" com a vida e, por que não? De bem com a morte.
Como gosto muito do Jorge Luiz Borges, postei esse vídeo bem curtinho de uma entrevista dele nos anos 80. Ele desconcerta o entrevistador [que diz desejar vê-lo daqui há cinco anos] ao dizer que tinha sonhado que morrera e que o sonho lhe trouxera um sentimento de felicidade e alívio. Sim, porque era um sonho, diz o entrevistador. No, no ,no! Me senti realmente feliz, aliviado, livre. O entrevistador muda rapidamente de assunto e fala em legado, em testamento, mostra bem como o assunto nos é desagradável e inoportuno. Borges se recusa a comentar, pede que esqueçam Borges e que leiam outros autores, mais importantes do que ele. Como qualquer pessoa sensível ele sabia que não estava aqui para deixar legados e conselhos, mas para caminhar para conhecer-se e deixar exposto seu caminho que também poderia ser chamado de sua obra [imortal]. Havia muito tempo que Borges se preparava para morrer.
Postei porque o sonho de Borges é também o meu sonho.
Foto retirada do blog http://www.novoslabirintos.blogger.com.br/
Ontem ao descer por uma das passarelas do metrô - usei a passarela apenas porque a escada rolante estava parada - quase no fim dei com uma menina, uns 16 anos, com os braços erquidos com toda força, segurando um caderno aberto e dobrado onde se lia, escrito com várias passadas de bic vermelha : "ABRAÇOS GRÁTIS".
As pessoas passavam apressadas, alguns olhavam apenas, eu juro que ia passar também, mas olhei bem pra ela, não com interesse, mas com admiração e ela "vai um abraço"? Respondi VAI! com um volume de voz e um tanto de decisão que me deixaram impressionado e assim aconteceu o abraço e enquanto nos abraçávamos ela disse um "aeeee" de alegria pura, equilibrando-se na ponta dos pés. A única coisa que eu consegui dizer, em troca, foi um obrigado tímido e meio gasto, saído do silêncio com muita dificuldade.
Foi um abraço rápido, com cerimônias, sem muito calor ou proximidade, sem conjecturas e sem futuro, sem necessidade. Ao contrário dos abraços solidários não desejava nada; diferente dos abraços de reencontro e despedida não tinha sentimentos exagerados; não trazia o sobressalto ou a força de um abraço de comemoração, de gol de placa; não vinha com a necessidade do beijo de um abraço de amor; não tinha esperanças de se repetir; não unia, não dividia.
Foi um abraço fresco, novo em folha como um alface brotando no sereno da manhã; vinha de alguém que sorria, alegrava-se e ansiava por um contato imediato de qualquer grau. Alguém que resolveu que se sentiria feliz abraçando grátis, um ato de bravura, dira eu, quase como decidir salvar alguém num mar agitado.
A menina seguiu, com seu colega ao lado, caderno erguido que a missão continuava e também segui eu, alma mais leve, dia mais claro, as mãos no bolso mais quentes de um calor de dentro que aliviava o vento frio que soprava distraído.
Sei que é um movimento mundial esse do abraço grátis, parece que iniciado por uma monja indiana que abraça multidões provocando catarses imensas, tudo bem, mas a Ordem do Mérito do Abraço vai pra menina da passarela do Metrô, por demonstrar bravura no campo de batalha da nossa cidade, por viver acima do mero cumprimento do dever e sobretudo por aquecer a minha manhã de inverno de forma sustentável, sem eletricidade, apenas com a energia de seu amor incondicional.
"A amizade requer aquele raro ponto médio entre semelhança e diferença", escreveu o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson.
Adorei a frase, mas quando pensava sobre a amizade recebi uma outra, da amiga Márcia:
"Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto onde foi interrompido. Afinidade é não haver tempo medindo a vida".
Arthur da Távola
E aí minha atenção se desviou para as palavras semelhança e afinidade. Uma sensação de mistério. Sim, porque amizade é uma coisa plantada, tratada e regada, logo se saberá se viceja ou perece, é natural, floresce e frutifica ou fica apenas caule, meio seco mas esperado.
Já a afinidade carrega consigo um quê de mistério. Não tem porque acontecer, é ilógica, randômica e inesperada. Não é fruto de plantio ou da vontade, e se não se dá vida a ela, assim também parece impossível que morra.
Gosto do sentimento da afinidade porque nele cada um pode ser o que realmente é. Como sentir afinidade se eu finjo? Os fingidores jamais poderão sentir a verdadeira afinidade, a mentira encontra parceiros, mas não afins. A afinidade também preserva a liberdade, podemos senti-la e continuar sendo diferentes.
A afinidade é independente como diz a frase porque não precisa do amor, da simpatia, existe mesmo na raiva, no desconforto e no ódio. Aliás faz tempo que as afinidades mal compreendidas levam ao ódio e à diferença. Sou estranho ao que me é semelhante ou muito sabido, sou estranho e desconhecido de mim mesmo em alguns momentos e aí me armo contra o que é igual.
Para encontrar afins você precisa conhecer seus gestos, sua preguiça, seu mau gosto e suas preciosidades. Precisa ter uma marca pessoal, por isso eu desconfio que afinidade pra valer seja mais presente em pessoas maduras. É lógico que eu estou chutando, mas a afinidade entre jovens vem sempre acompanhada de um corte de cabelo, uma roupa, um som da moda, enquanto na idade mais madura pode vir de uma lembrança, de uma pétala seca entre as páginas de um poema, um violino distante, um rosto, um erro, um suspiro.
Até no que é ruim a afinidade aparece. Nas piores músicas, nas alergias, nas derrotas, na solidão, na distância e nos veios caprichosos do mármore de uma lápide ou da mesa de um bar.
Dá pra sentir afinidade por quem nunca se viu ou se conheceu, e assim retomar conversas como se nunca tivessem sido interrompidas, surpreender-se a cada uma delas como se tivéssemos um parente distante que nos ocultaram por décadas, um terço interminável de semelhanças misteriosas.
Anos atrás eu dizia "estar a fim" de alguém ou de alguma coisa quando queria muito alguém ou algo. Desconfio que queria mesmo dizer "estar afim" pra externar o sentimento de pertencer, querer fundir-se com, juntar as metades rasgadas, porque no fundo mesmo, quando isso acontece me sinto mais humano, mais real, mais parte de um todo maior, sem tempo, sem bolor e sem sobrenomes.
Quando eu era pequeno havia uma propaganda com uma música muito bem feita, acho que pelo Zé Rodrix, que dizia "liberdade é uma calça velha azul e desbotada", e era comum ouvirem-se ironias a essa letra porque naquela época havia uma ditadura e a liberdade era um artigo de luxo para todos nós.
Alguns podem achar reducionista a frase do Zé, eu não achava e não acho. Sei que ele queria liberdade tanto quanto eu e se alguém a reduziu não foi ele, com certeza. Além do mais, quem da minha geração não sonhou com uma calça Lee? Pra mim ela representou o fim dos vincos, das benditas calças marrons que minha mãe comprava, das barras e dos cintos combinando...o fim dos cabelos curtos e o começo da vida de adulto. Não fosse o jeans eu talvez eu tivesse hoje vinte anos a mais.
Bom, mas eu estou me distanciando do que queria comentar.
Há alguns dias atrás estava numa sala coordenando o trabalho de um grupo de pessoas que discutiam e aplicavam técnicas do empreendedorismo em seus negócios num sistema de sub-grupos e colaboração mútua. Um deles apresentou um trabalho muito bem sucedido de uma grande mudança pessoal para resultados mais expressivos. O envolvimento do grupo, do proprietário da empresa, dos funcionários e clientes nos deixaram espantados e felizes.
Foi quase no final que alguém perguntou a esse empresário qual teria sido o maior benefício de todo o trabalho (foram quase 9 meses) e ele disse literalmente o seguinte: "Liberdade. Isso foi o que eu mais ganhei. Antes eu achava que o grupo de colaboradores eram um bando de pessoas que trabalhavam pra mim e via o cliente como alguém que pagaria minhas contas e meus luxos. Hoje entendo diferente. As pessoas dentro do meu negócio têm a minha confiança. Posso sair e deixa-las fazer seu trabalho. Todas querem agradar o cliente e fazer o melhor que podem. Hoje conversamos e decidimos juntos. Vejo o cliente hoje como a razão de ser da empresa. Faço tudo por ele e a equipe me ensinou isso. Eu me sinto mais livre e com mais tempo para família e amigos".
Imaginem o efeito que essa fala provocou no grupo. A emoção e o aplauso vieram porque acredito que a maioria ali presente ansiava por uma liberdade assim. Por que empreender deve ser sinônimo de sofrimento e perda? Por que tocar um negócio deve estar ligado a sentimentos de aprisionamento, de conflito com funcionários que só pensam em levar o deles e com clientes que sempre querem levar vantagem? Não seria tempo de quebrarmos esses paradigmas?
Gostaria de citar Viktor Frankl, um psicólogo austríaco que escreveu: "A liberdade para os seres humanos não é uma liberdade "de", mas uma liberdade "diante de". Não é uma liberdade de estado, mas uma liberdade de escolha. Diante dos condicionamentos e limites, fatos e circunstâncias, o ser humano é livre "para".
Quando eu era criança aprendíamos e cantavamos os hinos brasileiros. Sim, são vários. O nacional, o da república, o do expedicionário, o da marinha, etc. Aprendi e cantei todos e sempre tive um predileto: O da República, que por ter letra do Olavo Bilac também tem palavras que são do século passado, como labéus e porvir, que cantávamos automaticamente, mas tem um refrão que eu nunca esqueci:
Liberdade! liberdade! /Abre as asas sobre nós! / Das lutas, na tempestade/ Dá que ouçamos tua voz!
Hoje sinto que liberdade talvez seja treinar e me esforçar para ouvir essa voz, em meio à confusão interna e externa do cotidiano e de meus diálogos internos. Ouvir e seguir essa voz, seguir essa intuição, essa consciência-radar, esse espírito - não sei que nome seria mais adequado - seguir de forma espontânea esse algo que me ajuda dar melhores respostas e a fazer melhores escolhas diante das perguntas da vida; que me leva a dar mais sentido e felicidade ao fato de existir.
Desse esforço e treino me percebo tendo alguns lampejos de liberdade. Nesses momentos respondo sem pensar, meu coração fala, alterno entre emoção e clareza, faço comparações improváveis e surpreendentemente fundamentadas, não há tristeza, apenas um sentimento de estar, bem-estar.
Raramente concordo tanto com um texto. Tanto que resolvi publicar aqui. Também porque ando meio cansado e sem inspiração, mas o autor faz a gente refletir muito sobre valores como a persistência (e os motivos que nos levam a persistir), sobre a desgraça que é passarmos a vida inteira querendo aprovação dos outros (e agindo de forma a recebê-la), quando seríamos bem mais felizes sendo nós mesmos. Seríamos todos bem mais Mastroianni...
Além disso é bem escrito, criativo e bem humorado, coisas que eu gosto e então compartilho com vocês. Taí...e obrigado Xico Sá, espero não ter problemas com este copiarcolar bem intencionado.
XICO SÁ
Ora bolas
AMIGO TORCEDOR , amigo secador, homem que é homem chora em público, aos soluços, seja qual for o motivo, chora pela circunstância e chora pelo conjunto da obra, porque o choro de um homem nunca é um choro isolado, homem chora a dureza represada de ser homem, e triste dos homens que não choram nunca. Guga e Romário, por exemplo, choraram nesta semana o crepúsculo dos ídolos, a difícil hora de voltar para a vida normal de todos nós. Ronaldo chorou a mesma dor da outra vez, como ele mesmo disse, a dor que por mais que se repita é sempre capaz de surpreender até aquele homem doente, mau e desagradável que habita um subsolo perto da minha casa. Agora chega, amigo, reserva o joelho para dobrar pelas belas mulheres, para fazer uma prece, para, no máximo, bater uma bola no churrasco com o Ronald. Chega de sofrer em público, esquece essa loucura cristã e masoquista de dar a volta por cima. Vai ser craque na vida, menino, chega de provar para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém, vai para a noite e transforma todos os dias seguintes em dias de Mastroianni, como os belos dias sugeridos pelo Cuenca, não o Deportivo da Libertadores, amigo, mas o João Paulo, escriba decente da aldeia carioca. ""O Dia Mastroianni", como relata o livro homônimo, é aquele gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística. Ronaldo, amigo Fenômeno, os sádicos já estão lá fora, salivando à espera do seu novo sacrifício, de uma nova via-crúcis, de que abra a mão da vida livre e farta em nome de uma tal superação masoquista. Pensa bem, amigo, se a meta é se recuperar para as artes ludopédicas, levará pelo menos um ano, e olhe lá, é muito tempo. Se a recuperação é só para a vida e suas delícias, basta tirar os pontos e começar o estrago logo aí mesmo em Paris. Asseguro que terá mais boas festas do que o Ernest Hemingway; garanto que Henry Miller vai se debater no túmulo com a doce inveja das suas mulheres. Ora bolas, amigo, esquece os gramados, esquece essa torcida chata de Milão, esses doentes por futebol são um saco, nem conseguem enxergar os jogos, consagram e condenam num piscar de olhos. Vem para o Rio, meu rapaz, esquece as famosas e vê quantas belas bundas anônimas e menos trabalhosas. Sim, despede-se no Maraca, num jogo entre amigos, um tempo com a camisa do Flamengo e o outro com a indumentária do divino São Cristóvão, o berço, onde até aquela cabrita magra que pasta na grande área sente saudades dos seus primeiros gols.
O corvo lamenta Lamentável que a Copa do Brasil, torneio sagrado dos grandes secadores espalhados pelo país, tenha perdido um pouco do seu charme. Como mostrou esta Folha, muitos clubes estão largando seus grotões para jogar nas capitais e até fora de seus Estados. Esse abandono da aldeia, incentivado pelas malditas transmissões da Globo, é criminoso. Meu corvo Edgar estava tão triste anteontem que nem viu os jogos. Preferiu ver o Tarcísio Meira no filme ""Eu", do genial Walther Hugo Khouri, no Canal Brasil.
Ah!! O Xico também me fez imaginar que o Ronaldinho tenha feito um trato com o diabo, como um Fausto de chuteiras, e em troca da fama, fortuna e de ser o maior artilheiro de copa de todos os tempos teria dado sua alma, mas eis que na hora h se apieda a alma negra do demônio, e olhando para o garoto magro e miserável só consegue levar dele, assinado, os dois joelhos.