impressões de ontem


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Uma história que eu ouvi conta que num pequeno monastério morre, de repente, o mais sábio dos monges, aquele que era fonte e amparo de todos os outros monges. Numa cerimônia improvisada, alguns tentam, sem sucesso, falar do companheiro morto. Todas as mentes estão tomadas pela perda e pelo sofrimento inevitável, e então o silêncio vence e se espalha entre eles por meia hora. De repente levanta-se o monge cozinheiro, o mais humilde deles, com uma panela de barro nas mãos. Todos a reconhecem, é a panela de todo dia, a mais útil, aquela de onde, por tantos anos serviram-se do alimento. O monge cozinheiro então afasta as mãos da panela e ela cai, espatifando-se no chão em muitos pedaços. Nada mais foi dito. E todos compreenderam a mensagem.

Minha amiga U me visita às vezes. Amiga, cliente de coach, colega de profissão, uma pessoa por quem tenho grande admiração e profundo respeito. Hoje ela me visitou - como amiga - e falamos de algumas experiências recentes. Um contato íntimo com uma modalidade de negócio muito comum, aquele que manipula pessoas para conseguir altos lucros e dar visibilidade a poderosos, foi o início da nossa conversa. Minha amiga U, vivenciou e foi parte ativa de um negócio assim. Claro, isso provocou nela sofrimento e preocupação, principalmente porque havia outros envolvidos, pessoas que nela acreditaram e viajaram para longe acreditando que mostrariam seu trabalho, ganhariam mídia e, por que não, algum dinheiro...mas a coisa fracassou, e não houve ganho para nenhum deles. A amiga U esteve com eles o tempo todo. Limpou espaços, arrumou produtos, aconselhou, hospedou e cuidou da alimentação de cada um em tempo integral, estavam num país estrangeiro e ela era a única que falava o idioma. Ao final buscou a palavra deles, num jantar com todos reunidos, queria saber da experiência, que desabafassem, mas ninhguém falou. Depois, sozinha no carro, chorou muito por ver frustradas suas expectativas. Seu caráter reclamando da injustiça de ganhar onde outros perderam, de convencer outros a participarem de uma má experiência, do silêncio, e também por saber que o fracasso não serve para muita coisa, às vezes. Não há lição alguma, não há moral da história, há apenas um fracasso mesmo como fonte inesgotável de dissabor e mágoa. Claro que as pessoas não colocaram nela a responsabilidade, até porque ela vendeu a viagem e a oportunidade deixando claros os riscos envolvidos, fez sua venda sem promessas, sem enganação. Todos reconheceram sua boa intenção, mas ficou para ela o gosto ruim. O fato todo me recordou uma frase que que li ainda ontem, do ex ministro, antropólogo e educador Darcy Ribeiro, que passei a ela, ele disse: ". Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil  desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu". Não sei se serve exatamente, mas concordamos, eu e ela, que o dinheiro não será nunca o foco de nossas vidas, e até para isso há um preço que deveremos pagar.

Depois conversamos sobre a mãe da minha amiga U que faleceu em dezembro passado. Estavam lá todos os filhos para o Natal, vindos de longe e de outros países para passar o Natal e sua mãe morre subitamente. Assistimos a um vídeo onde, meses antes, minha amiga pede que sua mãe fale algo bem legal para que ela pudesse lembrar ao voltar ao Brasil. Sua mãe fala dos momentos e das conversas que tiveram juntas, de como esses momentos a ajudavam, e como desejava que fossem mais frequentes. Um desejo materno universal, pude sentir nos olhos dela o que não entendia no idioma estranho para mim. Depois ela me mostrou um vídeo onde depositavam as cinzas de sua mãe ao pé de uma árvore. Em seu país você pode comprar espaço em algumas florestas para depositar cinzas ao pé de árvores imensas. Minha amiga U me conta que dias antes sua mãe havia dito sentir-se uma madeira que havia ido com a correnteza, parando aqui e ali, por vários rios até chegar no mar. Agora estava prestes a ser devolvida à praia onde um escultor a utilizaria para sua obra, que assim se tornaria quase eterna. Minha amiga e seu pai conseguiram então um pedaço de madeira e fizeram 5 ou 6 esculturas, que estavam ao lado da árvore escolhida junto a um anjo. Sua mãe simpatizava com anjos. Cantaram, conversaram, retiraram tudo da floresta, pois nada que não pertença à floresta pode ser deixado lá, e se foram, cada filho levou uma escultura que poderá admirar enquanto viver. Na árvore apenas um pequena placa de metal com o nome e sobrenome.

Minha amiga também me falou de uma viagem de moto que fará com seu pai, em agosto próximo. Ele tem 80 anos. Vão percorrer uma grande distância juntos, e ela já está treinando andar de moto. Peço a ela, mais por mim do que por ela, que tente colocar no papel essa viagem, talvez porque eu mesmo não tenha feito uma viagem assim (e nunca mais poderei fazer) e nesse momento sinto um enorme arrependimento.

Na saída a amiga U me presenteia com um vaso de cerâmica lindo, me explica a técnica de queima da peça, "raku", queimada duas vezes, uma coisa de uma beleza imensa. Me emociono e penso no vaso da história do início deste texto. Ao contrário de espatifar-se e perder-se em pedaços, minha amiga U recolheu, paciente e conscientemente, seus pedaços em milhares de quilômetros e os reuniu para si mesma, para que sua vida tenha mais sentido, buscando a todo custo entender-se melhor. Sinto que no pequeno vaso que me deu, talvez como símbolo das conversas e momentos que tivemos juntos, estavam um ou dois pedaços desses que ela reuniu, misturado com alguns pedaços meus que eu mesmo recolhi e percebi que assim ela havia encontrado um jeito de me incluir, na justa medida, nessa busca desses últimos anos. Girei o pequeno vaso em minhas mãos, observando cada curva, e pensei que a argila poderia muito bem ter vindo de uma floresta, que todo o dinheiro desse mundo não pagaria esse presente e que, em seu vazio, ele continha toda a vida e todo o sentimento do mundo, porque é assim, vida e sentimento podem ser enormes mesmo em pequenos volumes.



Escrito por Bera às 12h34 AM
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O dia do cliente e o mau atendimento

 

 


Amigos das redes sociais estão criticando duramente algumas empresas pelo mau atendimento. Acho que eles têm razão, parte da falta de vontade das empresas em atender bem talvez seja fruto da nossa baixa exigência

 

Eu estou com a mão na massa. Desenvolvi, junto com uma equipe, mais de mil  pessoas do atendimento telefônico e por chat de uma grande companhia. Como em todo lugar há pessoas inconformadas (as que gostam de fazer acontecer, que não se conformam em deixar o cliente sem uma solução) e as conformadas (as que se rendem às inconsistências e impedimentos do sistema e da rotina e simplesmente deixam o cliente falando sozinho, gerando "n" protocolos de atendimento). Agora avaliaremos os resultados e tenho enorme esperança de que iniciamos um caso de sucesso nessa companhia. Uma mudança radical. Ainda lutamos para conseguir que a empresa aceite nossa proposta de aprofundar e reforçar o trabalho realizado com essas pessoas, mas acredito que muito já foi feito.

 

Concordo com meus amigos que a cultura de atendimento é fraca no Brasil, não temos a percepção de que "servir" aos outros é uma coisa nobre, um privilégio. Algumas pessoas que estão no atendimento (telefônico, principalmente) sofrem de uma espécie de complexo de inferioridade ao se perceberem nessa posição. São mal vistos, confundidos com "telemarketing", vítimas de piadas e preconceitos de outras pessoas, inclusive amigos; muitos vêem a profissão como uma primeira oportunidade de emprego da qual pularão fora assim que surgir uma outra melhor.

 

Falta-hes a consciência de que são a "linha de frente" da empresa em que atuam, que fazem parte de um grupo de pessoas responsáveis pelo primeiro contato, por estender o tapete, por dar ao cliente a idéia fundamentada de que com empresa que representam os clientes estarão em segurança e serão tratados com afeto e consideração. Falta a eles compreenderem que não deveriam buscar apenas serem bons atendentes, mas sim" especialistas em relacionamento". Um grande indicador de que nos falta essa cultura de atendimento é o fato de que muitas empresas "terceirizam" esse serviço. Colocam o relacionamento com seu cliente na mão de estranhos. Não é incrível? 

 

Por outro lado, ouvindo atentamente essas pessoas da linha de frente, eu também entendi que, para uma grande quantidade de clientes, falta uma atitude de "ser atendido", que poderia ser descrita por características como gentileza, paciência, compreensão, aceitação das negativas (alguns clientes têm um comportamento francamente infantil quando alguma coisa lhes é negada) principalmente quando as negativas são acompanhadas de argumento real e verdadeiro.

 

Também há os clientes (e não são poucos) que armam estratégias para conseguir vantagens às quais, por contrato, não têm direito; clientes que "furam filas"; os profissionais em processar empresas; há até alguns (raros, graças a Deus) que ligam para descarregar seus problemas pessoais da forma mais rude possível. Há empresas que conseguiram ordens judiciais proibindo alguns clientes desse tipo de entrarem em contato com a empresa tamanho o estrago que essas pessoas conseguiram produzir na equipe de atendimento! 

 

O contato com os grupos de pessoas que estão no atendimento (algumas por mais de uma década) me trouxe aprendizados fantásticos como, por exemplo, a luta constante dessas pessoas em tentar tornar mais flexível as normas de atendimento da companhia. É uma luta tipo David e Golias. A empresa promove vendas, atrai milhares de clientes ávidos por aproveitar essas oportunidades e o atendimento tem que lidar com sites que caem, burocracia interna, dificuldades e impedimentos do sistema de atendimento, normas legais que o cliente ignora, falta de pessoal, ambientes de trabalho sem espaço, sem ventilação e iluminação adequadas, etc. Ainda assim muitos deles fazem um trabalho brilhante de encontrar brechas, conseguir condições especiais, lidar com brigas domésticas (na casa do cliente!), colaborar com o cliente diante da falta de habilidade em lidar com sites e ferramentas que foram criadas para facilitar o atendimento e até a ignorância do cliente sobre o que realmente ele quer. Alguns atendentes passam mal -  digo fisicamente - com os maus tratos que sofrem. Outros vão pra casa deprimidos por terem sido xingados e rebaixados. Transpiram, choram, tremem, ficam com a boca seca, quando não conseguem uma solução. Ficam extremamente felizes quando conseguem solucionar problemas complexos e recebem elogios, presentes, extensos e-mails de agradecimeto, convites para trabalhar na empresa do cliente, etc.

 

Neste dia do cliente eu gostaria de dizer que sim..o cliente tem sempre razão, principalmente se deixar que a razão prevaleça. Desde que saiba reclamar com calma, elegância e justiça, escolhendo os meios legais dentro e fora da empresa para conseguir o que quer e fazer valer os direitos que tem, sem generalizar ou rebaixar a pessoa que está do outro lado do balcão, telefone ou computador.


 



Escrito por Bera às 02h46 AM
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Jurandyr e o talento

Jurandyr cresceu feio e magro na periferia da zona leste. Entre o córrego e a Cohab onde morava existia um deserto de lixo e detritos onde ele empinava pipas e catava coisas para vender. Jura (é assim que os amigos o chamavam, com exceção da avó que dizia Jurandí, assim com acento) catava latas, plásticos, embalagens e separava tudo por tamanho, cor, respeitando os tons e as formas. Assim conseguia dinheiro pros salgadinhos por quilo na venda do portuga.

Jura cresceu feio e magro, como aliás já disse, mas é que sua feiúra e magreza ultrapassaram a infância e a adolescência e o acompanharam até adulto. Fazer o que. Continuava vendendo lixo, agora para a cooperativa e ainda comprava uns comes na venda do portuga, que enricara, tinha carro do ano e uma mulata lindona pendurada nele, junto com as correntes de ouro. Além do lixo o Jura havia feito alguns cursos por correspondência. Não teve dinheiro pra comprar o kit básico para o curso de eletrônica de rádios e então só terminou o de vitrinista. Terminou e gostou. 

Procurou por muito tempo um emprego de vitrinista na rua São Caetano mas não conseguiu. Todas as lojas tinham designers especializados ou uma Dona Darcy que estava lá ha vinte anos e dava conta do recado. Suspeito também que a feiúra do Jura impediu sua entrada no mundo fashion. Sabe como é...

Os anos passam (aqui também enquanto você lê esse texto) e a única coisa que o Jura conseguiu, além de organizar todos os vidros de material de limpeza da sua mãe, roupas dos irmãos, todos os quadros da parede do apartamento da CDHU, (todas as obras recolhidas do lixão, naturezas mortas, acrílicos sobre tela, cristos de folhinha com um ar vanguardista, manchados de sujeira e borra de café), tudo o que conseguiu foi passar no concurso da PM. Sim, da PM. 

Desde o início, como calouro na corporação, o talento para a arrumação, organização e o senso estético do Jura o diferenciaram. Feiúra já não era problema e assim, rapidamente, ele chegou à Rota e ao posto de sargento. 

Semana passada, ao atenderem a um chamado na zona leste, Jura e seus colegas encontraram o portuga no lixão, corpo todo torto parecendo um boneco, boca cheia de sangue pisado e marcas de correntes arrancadas à força do pescoço. Da mulata nem sinal.

Após algumas diligências e tapas na orelha Jura e seus colegas prenderam o bando que assassinou o portuga. Jovens como ele, filhos do lixão, feios e desamparados. No apartamento do CDHU apreenderam fuzis, balas traçantes, granadas, pistolas e um enorme estoque de pacotes e papelotes coloridos de drogas variadas.

Antes que a TV chegasse Jura organizou tudo: por ordem de volume e perspectiva, balas, granadas, pistolas, fuzis, drogas, balanças, seringas...tudo tudo foi arrumado de uma forma genial, uma arranjo de qualidade indiscutível tendo ao fundo a bandeira do batalhão em criativo drapeado.

A foto do arranjo percorreu as primeiras páginas de todos os jornais do Brasil, para orgulho do Jura e dos colegas da corporação. Algumas fotos estão enquadradas na sala do coronel, e uma delas ganhou espaço no apê do Jura, que ainda mora com a mãe no CDHU. Entre o cristo de vanguarda e a natureza morta, tá lá. O talento do vitrinista que continua vivo.



Escrito por Bera às 12h17 AM
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O que se pode e o que não se pode falar

 

Ontem o Dagoberto, jogador do São Paulo, disse a um repórter que não iria mais fazer comentários sobre o time, fosse qual fosse o resultado, porque tudo que ele diz vira polêmica e alimenta crises. O mesmo já aconteceu com outros atletas, como o Marcos, goleiro do Palmeiras que disse num final de partida que o resultado negativo se devia à pouca produção do time, quase foi apedrejado por isso, e desse dia para cá mantém silêncio diante dos jornalistas.

Fiquei pensando que esses acontecimentos podem ser perfeitamente compreendidos dentro das famílias e organizações. Aliás os técnicos de futebol vivem querendo transformar o time numa família e os dirigentes sempre falam em futebol empresa, e no final os times não são nem uma coisa e nem outra.São grupos que se mantêm juntos por objetivos de curto prazo ou por ganhos financeiros pessoais.

As famílias, as organizações e os times (sejam de qualquer esporte ou empresariais) fazem parte de uma comunidade que tem uma cultura, um modo de pensar e fazer as coisas. Em nenhum desses grupos se exercita o falar claramente o que se pensa e muito menos dizer de forma assertiva o que se pensa do comportamento das pessoas envolvidas.

Famílias, times e grupos organizacionais convivem diariamente com falhas de comportamento, falta de comprometimento, boicotes e outros dramas sem que se possa interpelar ou discordar. Todos se calam e sofrem as consequências desse silêncio com medo de que sua interferência possa provocar um conflito.

Temos ainda um longo caminho, em todos esses grupos, para exercitar o conflito. Não digo vivenciar porque ainda nem o aceitamos, por isso digo exercitar.  Quando o aceitarmos como etapa comum de um convívio saudável aprenderemos até a provocá-lo. Sim. Provocar conflitos pode ser algo muito positivo e produtivo. Uma espécie de antídoto contra a acomodação e a estagnação das relações dentro de um grupo.

Interessante também é notar que a torcida, os que observam o conflito mas não fazem parte dele, admiram o Dagoberto, o Muricy, o Marcos e outros que falam o que pensam, que com transparência abordam o conflito sem medo e pagam o preço dessa transparência. Sofrem com o controle dos técnicos e dirigentes, que se apressam em jogar os fatos para baixo do tapete e com a mídia que coloca uma lente de aumento de intenção duvidosa em todos os assuntos porque sabe que lavar roupa suja em público dá audiência, justamente porque o conflito não é, para a maioria, uma coisa normal, uma ocorrência corriqueira de qualquer relacionamento entre as pessoas de um grupo.

Aguardo ansiosamente pelo dia em que teremos uma câmera no vestiários e os jogadores, técnicos, dirigentes e a mídia (em silêncio) poderão presenciar o conflito completo, com ou sem confronto, até sua solução. Tudo o que hoje se diz que deve ser resolvido internamente sendo resolvido externamente, para todo mundo ver e aprender.

 



Escrito por Bera às 03h43 AM
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Transparência

      

Não sei bem qual foi o objeto que chamou minha atenção pela primeira vez. Acredito que tenha sido uma caneta tinteiro, os fabricantes faziam modelos transparentes para que os clientes pudessem ver a engenhosidade do seu mecanismo, do seu funcionamento. É de fato o primeiro objeto transparente de que me recordo. 

Havia também o vidro. Litros de leite, janelas multicoloridas, muitas casas tinham janelas com vidros verdes, vermelhos, amarelos, e eu juntava cacos desses vidros quebrados e guardava como se fossem pedras preciosas. Havia lentes. Ganhei uma certa vez. Com ela na posição certa, em relação ao sol, era possível por fogo em qualquer coisa (pensando bem quem será que foi o maluco que deu isso na mão de uma criança?). Havia os vitrais, aquele do Mercado Municipal, os da igreja com cenas de santos e mistérios, os relicários com tecidos e ossos dos santos de Jerusalém, havia as bolinhas de gude e seus padrões de transparência e cor inesgotáveis.

Celulóide. Os relógios, alguns pelo menos, não tinham vidro. Em seu lugar havia celulóide. Eu procurava celulóides de relógio nos relojoeiros (acreditem, eles eram muitos), e alguns davam os riscados e amarelados pra gente. Eles sabiam que aquelas escamas de plástico pré histórico iam virar craques de futebol nos campos de futebol de botão, por isso nos davam. Eram transparentes mas tinham um jeito envelhecido, parecia que morriam aos poucos.

De fato não há explicação para a atração que eu sinto até hoje por objetos transparentes. Canetas Bic, isqueiros chineses, bolas de vidro, garrafas coloridas de club soda no mercado de Santelmo, chaveiros baratos, pedras de âmbar nas galerias da rua Sete de Abril, cristais de rocha...não importa. É transparente eu gosto. Vai entender.

Descomplica olhar para uma coisa e vê-la por dentro, revelada antes mesmo que eu tivesse uma dúvida. Não pensem que simplifico. O segredo da coisa continua, você pode olhar quanto quiser para uma Parker 51 transparente, escrever com ela, tocá-la, mas os segredos continuam ali. Como a tinha líquida escorre na quantidade certa, nem menos, nem mais? 

Transparência está em tudo: na natureza, nas roupas, plantas, nos projetos de tudo que a indústria deseja demonstrar. Ela me atrai como um espelho de verdade, não esses falsos que refletem, mas aqueles que levam você pra dentro deles, pra outra dimensão.

Algumas pessoas também falam em transparência no relacionamento entre pessoas. Acredito, mas acho difícil. Talvez por breves momentos, talvez entre velhos amigos sem medo de serem brilhantes, ridículos, estúpidos, ternos, contando as velhas piadas repetidas de sempre. Aquele tipo de amigo que quando você olha não vê, embora saiba que ele está lá.

Até hoje não consigo evitar. Andando pela rua ou onde estiver, coisas transparentes fazem minha cabeça virar. Se forem objetos pequenos, com certeza vou pegar na mão e levar à altura dos olhos e olhar através dele. Um gesto que repito desde que me entendo por gente. Talvez a única coisa, o único espanto, curiosidade e rito que ainda traga da infância. 



Escrito por Bera às 01h36 PM
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Geração Y

Tec, tec, tec...Vá dormir filho!

Ninguém responde.

Era sempre assim. Madrugadas e madrugadas o garoto inclinado sobre aquele retângulo bege, fazendo não sei o quê.

Jovens! Pensou ele. Não se importam com a dura luta pela sobrevivência, têm a cabeça nas nuvens, imagine ficar horas com o olhar fixo naquelas coisas, não se importar com o sol, o vento, os animais soltos, o perfume das plantas. Pessoalmente achava muito egoísta essa nova geração. Preocupavam-se com coisas sem importância, viviam perguntando o porquê das coisas, até aquelas que a natureza explicava perfeitamente. Tudo o que faziam tinha que ser apreciado. Mesmo como pai já se cansara de emprestar adjetivos encorajadores para todas as bugigangas que o filho adolescente lhe mostrava. Ele devia é enfrentar o mundo como ele é. Meus pais encararam perigos num mundo muito mais adverso, sem os confortos que temos hoje e se estamos mais aquecidos e alimentados devemos a eles essa possibilidade.

Os ruídos externos não o deixavam dormir e o bater ritmado do filho fazia um contraponto irritante. O dia quase amanhecia. A esposa dormia profundamente e ele invejou sua capacidade de não se incomodar com os ruídos, a claridade, as coisas erradas. Ela se orgulhava das mãos habilidosas do filho e pelas paredes pendurava todos aqueles desenhos e figuras sem sentido que o menino produzia. Sem censura, sem julgamento. Mesmo não compreendendo nada do que continham. Orgulhava-se porque ele era diferente. Diferente! Pensou. Quero ver quando tiver que sair do calor do seu mundinho para matar um leão por dia como eu. O que será dele? E o pior é que havia outros da idade dele que trocavam objetos, que passavam também as madrugadas insones completando não sei que tipo de trabalho que depois os alegrava e os excitava a cada encontro pelos cantos da casa.

Levantou-se e começou a preparar-se para enfrentar o dia. No seu canto o filho dormia enquanto a luz fraca iluminava seu rosto. Ao lado dele toda aquela parafernália que teimava em carregar quando viajavam, um peso inútil. Aos seus pés mais um de seus trabalhos: um disforme pedaço de pedra com sinais incompreensíveis, poeira e lascas para todo lado, dedos feridos encolhidos nas palmas das mãos.

Jovens, pensou novamente. Acho que estão todos ficando loucos. E saiu, para matar seu leão diário.



Escrito por Bera às 03h36 AM
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 Fiesta "Las Alasitas" tradição boliviana

Tenho curiosidade pelo que vai dentro das pessoas, seus costumes, comidas e comportamentos.

Como já escrevi por aqui os bolivianos são a última onda de imigrantes aqui no Brás, SP. São gente mansa e que gosta de se reunir em feiras e esquinas. Tenho contato com alguns - poucos infelizmente -  e por esses dias conversando com uma amiga fiquei sabendo de uma nova. Uma feira ou festa que eles fazem e que ocorre também aqui em São Paulo no dia 24 de janeiro. Fiesta ou Fiera de las Alasitas.

Minha amiga boliviana Virginia me explica a festa "de las cosas pequeñas". Quis saber mais e ela me contou que tudo o que você quiser conseguir pode achar, em miniatura, nessa festa: Casa, carro, dinheiro, barco, profissão, tudo. Se quiser um amor (homem) compra um galo em miniatura, se quiser uma companheira, uma galinha pequenina.

Tudo garantido pelo Deus Eleko (da abundância), que é resquício dos tempos pré colombianos

O tal Deus Eleko, hoje representado por um jovem andino cheio de alimentos e dinheiro pendurados em seu corpo dá uma idéia de como os aimarás e quechuas sabiamente misturaram suas crenças com as dos conquistadores brancos, como índios e africanos fizeram por aqui. 

Festas populares são incríveis. O impulso de celebrar é algo que perdemos nesses dias modernos que vivemos. O impulso de celebrar em grupo, de compreender que estamos juntos neste espaço e neste tempo e devemos dançar sobre as boas colheitas que garantem nossa sobrevivência. O sentido de "garantir" esse período após uma boa colheita e então beber e comemorar sem pensar no amanhã é uma coisa muito atraente pra mim, que vivo querendo ser responsável demais.

Mas uma coisa me deixou mais encantado do que o festejo em si

O que me emocionou, no relato da Virginia, foi a forma delicada de querer que a festa propõe. Comprar pequeno e esperar ficar grande. São assim os sonhos, não? Começam como um sopro e vão crescendo dentro da gente alimentados pela força de vontade, expectativa e paciência.

Alguns não crescem, ficam miúdos mas sobrevivem, outros encolhem, até desaparecem, alguns não chegam a nascer, o que é triste.

Sobretudo há os que nos espantam com seu crescimento, que nos alegram quando os vemos grandes e fortes nos encorajando a nos sentirmos grandes e fortes como eles. E ainda há sonhos que crescem em gerações. Aqueles que plantamos para que outros colham, como oliveiras e jabuticabeiras centenárias outras bocas provarão os doces frutos. Esses talvez sejam os mais nobres e intensos.

E a usted? O que te dará Eleko? 

Abaixo um texto de fev 2010 que retirei do blog http://bolivianasregistrosdeumaantroploga.blogspot.com/2010/02/alasitas-saudades-e.html da antropóloga Caroline Cotta de Mello Freitas. Ela explica com detalhes essa festa típica num texto muito gostoso.

Feria de las Alasitas

No dia 24 de janeiro começa em La Paz a Feria de las Alasitas. Essa feira tem como principal característica a venda de miniaturas que tem uma finalidade ritual. Essa finalidade é que elas se tornem realidade sob os auspícios do Ekeko (adiante explicarei quem ele é). A feira, é importante dizer, coincide com o solstício de verão.
A tradição da feira teve início em 1781, quando o governador de La Paz, Sebastián Segurola, determinou que se celebrasse uma festa anual em homenagem à divindade pré-colonial chamada Ekeko. Essa homenagem se devia ao fato de a cidade de La Paz ter sobrevivido ao cerco comandado por Túpac Katari e que durou 109 dias (em uma das maiores rebeliões indígenas contra o domínio espanhol na região do Alto Peru).
Desde então se realiza esta feira em La Paz. A feira inicia ao meio dia do dia 24 de janeiro e dura aproximadamente 3 semanas. A feira também acontece em outras cidades da Bolivia, mas a maior e mais importante é a paceña.
Há, principalmente, miniaturas de coisas que fazem parte do universo doméstico, como fogões, geladeiras. Há também casas, carros, malas cheias de dinheiro. Enfim, todo aquele bem material que alguém possa desejar. Essas miniaturas são compradas e "oferecidas" ao Ekeko, que vai trazê-las para quem pede. Uma coisa interessante é que também se podem comprar miniaturas de passaportes, para quem deseja viajar; diplomas, de graduação e pós (comprei um de tese de doutorado... por si a caso... rsrs); documentos de propriedade de casas, apartamentos; miniaturas de cesta básica, carrinho de supermercado cheio; miniaturas de lojas (se pode escolher de que tipo de produtos); certificados de boa saúde; contratos de trabalho; miniaturas de vans e caminhões dos mais variados tipos... enfim, quase tudo que se possa imaginar. Ah!! Também existem os galos e as galinhas!! Mas esses não se pode comprar, para que sejam realmente eficientes devemos ganha-los!! Eles garantem amor. Também se encontram miniaturas de "famílias", ou seja, o galo, a galinha e seus ovos. Estes são para quem quer ter filhos e, seguindo a mesma lógica, devem ser recebidos como presente. A feira é composta por MUITAS banquinhas onde se encontra todo tipo de miniatura (MESMO!!) e as pessoas chegam cedo, para garantir que conseguirão encontrar tudo que querem/necessitam. Cheguei a feira ás 11 da manhã e estava LOTADA. Como sempre, velhos, adultos, crianças, palanque de políticos (García Linera tinha acabado de fazer o seu discurso quando cheguei), muita música e banquinhas de comida [que serviam, principalmente o Plato paceño, que consiste em um choclo (um tipo de milho que tem os grãos grandes), um pedaço de queijo frito ou natural e favas cozidas em sua vagem].
As pessoas chegam cedo porque depois de comprar tudo o que se deseja, e de, ocasionalmente, ganhar seu galo/galinha, ao meio dia do dia 24 é preciso submeter todas as coisas a um ritual, a Ch'alla. A Ch'alla é um ritual andino que inclui aspergir álcool ou vinho nas coisas, jogar pétalas de flores, defumar com incenso e tudo isso ao dizer algumas orações que misturam tradições pré-hispânicas e católicas. Esse ritual, em geral, é realizado por pessoas de origem aymara ou mestiços.
As minhas coisas (porque além do diploma de doutorado, comprei uma casinha, uma mala de dinheiro, um carro, um certificado de boa saúde, entre outros... rs) foram Ch'alladas por uma senhora aymara, bem velhinha, que perguntou o meu nome e depois começou a jogar o vinho e as pétalas, na sacolinha onde estava tudo, incensou a dita sacolinha, dizendo algumas coisas em aymara. A Ch'alla é paga, e há uma corrida às senhoras que parecem mais "confiáveis," porque aparentemente mais velhas e/ou com mais traços de aparência aymara, para que a Ch'alla seja feita, exatamente, ao meio dia. Segundo meus amigos paceños, Ch'allando as coisas nessa hora do dia 24 tudo é mais "potente" e as chances de o Ekeko atender aos teus pedidos é maior. Pelo sim, pelo não, fiz tudo como eles e recomendaram. Importante: devemos guardar as coisas que compramos e devidamente Ch'alladas (ou seja, melecadas de vinho/álcool, com pétalas de flores e etc) em um lugar escuro e onde não toquemos muito (como no fundo do guada roupa, por exemplo). Perguntei até quando deveria guardar minhas coisas, mas meus amigos não souberam me responder... enfim, vou levá-las para São Paulo. Quem sabe lá os auspícios do Ekeko também cheguem... 

Quem é o Ekeko?
O Ekeko é um Deus da abundância, da fecundidade e da alegria. Tem origem aymara e ainda é bastante popular no altiplano andino. Se acredita que o Ekeko traz abundância para uma casa em que se lhe oferecem álcool e cigarros.

 



Escrito por Bera às 02h19 AM
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Mario Monicelli morre aos 95

A voz em off no vídeo, com sotaque de Portugal diz "Mario Monicelli transformava a miséria dos italianos em riso".

A afirmação é superficial demais para descrever Monicelli. Ele viveu profundamente a história da Itália, tomou posição moral, pessoal e política; mas também era um especialista em miséria humana, possuia uma compreensão dos fatos, da história, orientava-se pela verdade e por seus próprios valores e julgamentos. Tinha uma visão do mundo e da nossa natureza que excedia as fronteiras de sua nacionalidade.Transformar miséria em riso seria apenas ser comediante. Ele era um filósofo, um pensador, um diretor de cenas que nos forçava pensar enquanto ríamos de nossa própria condição humana olhando para os personagens na tela.

Foi assim que ele dirigiu obras primas como Guardie e Ladri, O Incrível Exército de Brancaleone, Parenti Serpenti onde expôs nossas frivolidades, nosso egoismo, nosso patético egocentrismo, nossa graça, nosso valor e principalmente o sal da terra, o supremo tempero de todas as coisas, aquilo que de certa forma nos perdoa, nos redime e nos dá uma segunda chance sempre: o bom humor.

Eu assisti a muitos de seus filmes na adolescência, então Monicelli me ajudou a ter uma visão relativa das coisas, buscar o outro lado, buscar o que há de comum entre uma situação triste e uma alegre, entre a grandeza e a miséria. Ajudou-me a descobrir que sempre há essa ligação.

No livro A Força do Caráter, James Hillman diz que a tarefa dos mais velhos é repetir sempre as mesmas histórias e aos mais jovens cabe ouvi-las sempre e sempre, prestando atenção porque embora pareçam iguais elas nunca são.

Os filmes do Mario Monicelli são assim, lo stesso sempre diverso. Ele cumpriu seu papel de contar histórias alegres e amargas, me ensinou com seus filmes que refletir sobre as mais diversas situações é nossa obrigação. Talvez os jovens devessem conhecer e assistir mais e mais seus filmes.

Eu vou.




Escrito por Bera às 05h26 AM
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Cambia, todo cambia

(Post em homenagem a Mercedes Sosa, falecida em 4/10/2010)

As décadas de 60 e 70 foram duras aqui na América Latina, foram tempos marcados por ditaduras menos e mais violentas controlaram que aterrorizaram e mataram milhares de pessoas.

Alguns fugiram, outras ficaram e lutaram armados, resistiram. Alguns fizeram do teatro, livros e música suas armas e combateram assim contra os que lhes tiravam a liberdade.

A mudança era um tema recorrente de canções que se opunham ao autoritarismo. Eu sabia várias delas e as cantava pra mim mesmo, sem heroísmo e sem intenção de derrubar governos, apenas pensando na dor e na coragem daqueles que as cantavam e tinham seus dedos cortados ou eram atirados vivos de um avião no meio do Atlantico sul.

Os grupos de músicos latinoamericanos eram muitos e ouvíamos com atenção suas canções. Eu gostava particularmente das que falavam em mudança, por que eu era jovem e me parecia impossível que eu fosse viver no mesmo mundo que meus pais e avós. Não. Para que eu pudesse crescer ele teria que mudar, e muito, porque eu decididamente não concordava com quase nada do mundo como ele era.

Hoje me esforço para encarar as mudanças, a falta de crença no que é político, a falta de força para combater o autoritarismo, ainda presente usando outras fantasias pra se disfarçar, as mudanças tecnológicas (como este blog que nunca pensei que fosse existir) e por aí vai.

Uma canção em particular era querida demais porque tinha um refrão que dizia "Cambia, Todo Cambia" que quer dizer muda, tudo muda, composta pelo Julio Numhauser componente de um desses bravos grupos de músicos chilenos que cantavam enquanto a ditadura os perseguia. O grupo se chamava Quilapayún.

Coloco um vídeo aqui da Mercedes Sosa, argentina de Tucumán, cantando a canção. A letra e a música são sempre as mesmas. A mudança é que não é a mesma. Ao ver esse vídeo pensei que o autor não falava apenas de um momento histórico, mas falava da eternidade e de como é muito mais belo um mundo e um universo onde tudo muda sempre. Hoje penso que ele queria que celebrássemos as mudanças como uma obra de arte, como um por do sol, como uma vida, do nascer ao morrer. 

Há uma última estrofe, onde o Julio diz que só não muda o amor pelas coisas que amamos, lugares e pessoas. Isso também não mudou pra mim e hoje acho quase impossível viver em qualquer lugar onde não haja muito amor pelas coisas, pessoas e canções. Envio a canção e a letra para vocês com a esperança de que esse sentimento de amor prevaleça sobre tudo, como a voz única da Mercedes sobre a multidão apaixonada.

TODO CAMBIA

(Julio Numhauser)

Cambia lo superficial  también cambia lo profundo

cambia el modo de pensar cambia todo en este mundo

cambia el clima con los años, cambia el pastor su rebaño

y así como todo cambia que yo cambie no es extraño
cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo

cambia el nido el pajarillo cambia el sentir un amante
cambia el rumbo el caminante aunque esto le cause daño

y así como todo cambia que yo cambie no es extraño
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia

cambia el sol en su carrera cuando la noche subsiste

cambia la planta y se viste... de verde en la primavera
cambia el pelaje la fiera cambia el cabello el anciano

y así como todo cambia, que yo cambie no es extraño...

pero no cambia mi amor por mas lejos que me encuentre

ni el recuerdo ni el dolor... de mi pueblo y de mi gente
y lo que cambió ayer... tendrá que cambiar mañana

así como cambio yo... en estas tierras lejanas
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia
cambia todo cambia



Escrito por Bera às 03h22 AM
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Luzes, sombras, pássaros e almas

 

Durante um evento, na noite do nono aniversário do desastre de 11 de setembro que destruiu os dois edifícios em Nova Iorque, os organizadores projetaram duas colunas de luz, gêmeas, sobre o local da tragédia.

Assim que apontaram para o céu os dois raios de luz foram invadidos por pequenos objetos, milhares deles, girando e brilhando sob a luz intensa. Algumas pessoas pensaram ser papéis levados pelo vento, outros imaginaram uma tempestade de neve fora de época, era difícil não pensar que de alguma forma as almas dos que pereceram sob os escombros flutuava como que aceitando a homenagem.

O mistério foi rapidamente elucidado: Eram pássaros que segundo um especialista, John Rowden, utilizam aquela área como um corredor migratório. A luz forte atrapalhou seu sentido de navegação e eles ficaram presos no raio de luz. Ornitologistas chegaram a calcular em 10.000 os pássaros que voavam dentro da luz, eles conseguiram inclusive identificar várias espécies diferentes. Também citaram outros eventos com luz onde a mesma coisa aconteceu.

Achei o vídeo muito lindo. A explicação também. Eu resumi porque ela era bem mais complexa do que expus neste post. Aliás foi isso que me chamou a atenção. A complexidade e a quantidade de detalhes da explicação do fenômeno.

Sou considerado por meus amigos um cara racional. Uma amiga até diz que por ser do signo de aquário eu sei (ou sei quem sabe) uma explicação para tudo o que acontece e o que ainda vai acontecer no universo. Talvez o John Rowden tenha servido de espelho pra mim. Talvez tenha sido a música que acompanha o vídeo, talvez seja excesso de televisão na infância, o fato é que eu comecei a achar a racionalidade da explicação uma manobra para não me deixar ver o que realmente aconteceu.

Li uma história há muito tempo sobre um fato ocorrido numa aldeia da Polônia, em 1939. Os habitantes - na maioria judeus - dessa aldeia, cercada de florestas, começaram a ouvir, de repente, durante a noite, um uivo, um som assustador. Foram ao rabino para pedir explicações e ele enviou uma pessoa na direção do som, para que verificasse o que era. Acontece que ele decidiu enviar um louco. Isso. O louco da aldeia.

No dia seguinte bem cedo o louco retorna e conta a todos, reunidos na praça, que o som vinha de uma árvore oca, devorada por cupins, que havia tombado na direção do vento sul. Ao soprar, o vento era canalizado pelo tronco da árvore e ao sair pelos galhos mais finos, ocos também, emitia esse som que parecia um uivo, um grito, mais grave ou mais agudo, dependendo da espessura do galho pelo qual entrava.

O rabino ouviu e calmamente pediu a todos que pegassem seus pertences e algum alimento e colocassem numa pequena mala, bem leve, por que ele guiaria a todos para fora da aldeia naquela mesma noite. Claro, todo mundo perguntou o porquê disso, mas o rabino se recusou a dar explicações.

Cerca de metade da aldeia saiu com o rabino. Os que não acreditaram na história do louco ou na determinação do rabino foram exterminados dois dias depois pelas tropas nazistas que invadiram a Polônia em 1º de setembro de 1.939. Ninguém foi poupado.

Ao saber as más notícias todos foram ao rabino, agradecer e perguntar por que ele havia tomado aquela decisão salvadora.

O rabino então disse: Foi o excesso de detalhes da narrativa do louco, a racionalidade quase que irreal com que ele contou a história me fez tomar a decisão que tomei.

Deixa eu voltar para os pássaros e as luzes. Ok, pássaros. Mas e se os pássaros estivessem ali para dizer alguma coisa? E se eles desenharam, em seu idioma, no ar, em letras maiúsculas e legíveis a mensagem que só um dia entenderemos? E se a contagem dos cientistas estivesse errada, um erro provocado pelo movimento e pelo excesso de luz e eles fossem 2.966, o exato número de mortos naquele dia? E se a grande variedade de pássaros estivesse ali para representar a grande variedade de cores e credos das pessoas que morreram nos desabamentos? E se dentro do brilho intenso os pássaros nos mostrassem, ao entrar e sair, a nossa eterna condição de seres de luz e de sombra?

Seria muito Mario Quintana fazer esta última pergunta, mas vá lá...e se as almas realmente encarnaram em pássaros como uma compensação maravilhosa para a horrível prisão que deve ter sido agonizar sob toneladas de concreto, aço, irracionalismo  e estupidez?

E se...?



Escrito por Bera às 02h43 AM
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